17 dezembro, 2012

O grau de parentesco e os efeitos dos casamentos consanguíneos.

por
A Rainha Isabella de Portugal foi casada com Charles V, seu primo em 1º grau.

Já tratamos anteriormente sobre o risco bem maior que os casais consanguíneos têm de  produzirem descendentes que apresentem anomalias relacionadas à carga genética da população na postagem intitulada: Quais os riscos dos casamentos consanguíneos

Porém, ainda há muita confusão entre os níveis de consanguinidade do ponto de vista genético e do ponto de vista social. Assim, para a maioria das pessoas um casal formado por dois meios irmãos é, aparentemente, mais próximo do que entre tios e sobrinhos, mas, geneticamente falando, os efeitos de ambos são idênticos e suas diferenças são meramente sociais.

Na história das famílias reais, incluindo a brasileira, o casamento entre tios e sobrinhos ou entre primos em primeiro grau são frequentes. A filha de Dom Pedro I foi casada com seu tio Dom Miguel com dispensa do impedimento de consanguinidade por breve do papa Leão XII.  Porém, o efeito deste casamento em descendentes não existiu, por ele nunca ter sido consumado, pois o matrimônio ocorreu em 1828, quando Dona Maria II tinha apenas 9 anos de idade e foi anulado antes dela completar a maioridade, em 1834. Certamente, o Papa Leão XII não teria autorizado o casamento se D.Maria II e D. Miguel I fossem meios-irmãos. 
D.Maria II, com 10 anos e seu consorte D.Miguel I, antes da anulação do casamento.
 Relações consanguíneas não são exclusividade humana, pelo contrário, é bastante comum a utilização de “cruzamentos” consanguíneos para seleção de características desejáveis em processos de melhoramento animal, bem como vegetal.

O filme Criação (Creation) aborda o drama pessoal de Charles Darwin que era casado com sua prima e perdeu sua filha mais velha ainda jovem. Darwin especula que a causa da morte prematura da menina seja o resultado de alguma debilidade herdada, em função da sua união consanguínea.


Darwin, antes de publicar seu revolucionário livro “A origem das espécies”, realizou muitos cruzamentos consanguíneos entre pombos para produzir raças diferenciadas e mostrar que as características especiais já estavam presentes nos pombos selvagens, apenas foram sendo selecionadas. 

O filme mostra que, antes de realizar seus experimentos, ele consultou um criador que lhe sugeriu a utilização de cruzamentos consanguíneos como ferramenta para obter variantes de forma mais rápida. Ao mesmo tempo, este consultor alertou-o de que, através destes cruzamentos, nasceria uma porcentagem de indivíduos defeituosos que deveriam ser eliminados, mas para um homem rico, como ele, este não seria um problema grave.
Diferentes raças de pombos criadas por Darwin, a partir do pombo das rochas ao centro  (Ge.Knit.Ics)

Assim sendo, desde há muito, é sabido que cruzamentos ou casamentos consanguíneos apresentam risco aumentado de gerar descendentes com anomalias genéticas graves. Contudo, por razões sociais, alguns casamentos consanguíneos são vistos com “melhores olhos” do que outros, mesmo que seu efeito genético seja idêntico.

Quando se analisa um casamento consanguíneo se medem dois parâmetros:

I. O coeficiente de consanguinidade (r), que mede a probabilidade de dois indivíduos consanguíneos serem heterozigotos para um gene autossômico recessivo raro, herdado de um mesmo ancestral comum.

II. O coeficiente de endocruzamento (f), que mede a probabilidade de um casal consanguíneo gerar um descendente homozigoto para anomalia autossômica recessiva, ou seja, manifestar uma anomalia genética rara.

Os valores de “r” e de “f” são invariáveis, enquanto para os casais não consanguíneos as chances de gerarem um filho afetado por uma anomalia genética rara variam com a frequência do gene. Desse modo, dependendo da frequência do gene um casal não consanguíneo poderá ter a chance de 1 em 1 milhão, 1 em 1 bilhão ou 1 em 1 trilhão, por exemplo, enquanto para um casal consanguíneo com f = 1/4 esta chance será sempre de 50 casos em 100.

Diferentes tipos de casamentos consanguíneos e seus efeitos:

1. Casamento entre Pai e Filha ou entre Mãe e Filho.

Neste caso o coeficiente de consanguinidade é ½ e o coeficiente de endocruzamento é ¼. Isto significa que uma anomalia grave em que casais não consanguíneos teriam a chance de 1 em um milhão de gerar descendentes afetados, em um casal formado entre pais e filhos esta chance passa a ser de 25 casos em 100.

2. Casamento entre irmão e irmã.

Neste caso, o coeficiente de consanguinidade também é ½ e o coeficiente de endocruzamento é ¼, equivalendo ao casamento entre pais e filhos. Assim sendo, as chances deste casal ter um bebê com anomalia também é de 25 casos em cada 100.

3. Casamento entre meio-irmão e meia-irmã.

Neste caso o coeficiente de consanguinidade é ¼ e o coeficiente de endocruzamento é 1/8. Assim sendo, enquanto um casal não consanguíneo teria a chance de 1 em um milhão de gerar descendentes afetados, em um casal formado entre meios-irmãos esta chance passa a ser de 12,5 casos em 100.

4. Casamento entre Tio e Sobrinha ou entre Tia e Sobrinho.

Como no caso anterior, o coeficiente de consanguinidade é ¼ e o coeficiente de endocruzamento é 1/8 e as chances deste casal gerar um filho com deficiência é de 12,5 casos em 100.

5. Casamento entre primo e prima duplos em primeiro grau (primos-irmãos)

Como nos casos anteriores, o coeficiente de consanguinidade é ¼ e o coeficiente de endocruzamento é 1/8 e as chances deste casal gerar um filho com deficiência é de 12,5 casos em 100. 

Ou seja, geneticamente falando, não há diferenças entre casamentos de meios-irmãos, tios e sobrinhos e primos-irmãos.

6. Casamento entre primo e prima em 1º Grau.

Neste caso o coeficiente de consanguinidade é 1/8 e o coeficiente de endocruzamento é 1/16. Assim sendo, enquanto um casal não consanguíneo teria a chance de 1 em um milhão de gerar descendentes afetados, em um casal formado entre primos em primeiro grau esta chance passa a ser de 6,25 casos em 100.

7. Casamento entre Tio e Meia-sobrinha ou Tia e Meio-sobrinho.

Também neste caso o coeficiente de consanguinidade é 1/8 e o coeficiente de endocruzamento é 1/16. Ou seja, um casal formado entre tios e meios-sobrinhos tem chance de 6,25 casos em 100 de gerar um descendente com anomalias genéticas raras, equivalendo ao casamento entre primos de primeiro grau.

8. Casamento entre primo e prima em 2º grau.

Neste caso o coeficiente de consanguinidade é 1/16 e o coeficiente de endocruzamento é 1/32. Assim sendo, enquanto um casal não consanguíneo teria a chance de 1 em um milhão de gerar descendentes afetados, em um casal formado entre primos em segundo grau esta chance passa a ser de 3,125 casos em 100.

9. Casamento entre primo e prima em 3º grau.

Neste caso o coeficiente de consanguinidade é 1/32 e o coeficiente de endocruzamento é 1/64. Assim sendo, enquanto um casal não consanguíneo teria a chance de 1 em um milhão de gerar descendentes afetados, em um casal formado entre primos em segundo grau esta chance passa a ser de 1,6 casos em 100.
Já, para os primos em quarto grau as chances são menores do que 1 caso em 100 e assim sucessivamente.

Algumas questões intrigantes:

Na sociedade atual, há chances de haver casamentos entre meios-irmãos?

Sim, estas chances são bastante grandes, especialmente em países como os Estados Unidos, onde muitos casais ou mulheres solteiras recorrem a bancos de sêmen para reprodução assistida. Segundo Tadeu Meniconi, em pesquisas de procura por meios-irmãos, nos Estados Unidos, foram registrados casos em que mais de 100 pessoas foram geradas com esperma do mesmo doador.

No Brasil, há o caso do médico foragido Roger Abdelmassih, que utilizou sêmen de um doador, sem conhecimento e autorização dos pais, em vários casos que atendeu. Desse modo, jovens podem se apaixonar por seus meios-irmãos sem ter a menor noção disso.

Irmãos poderiam se casar sem conhecimento de seu parentesco?
Sim, nos casos de países em que a doação de embriões é autorizada. Ou seja, casais que buscam reprodução assistida podem gerar vários embriões viáveis, dos quais, alguns nunca serão utilizados por eles. 

Nestes casos, cogita-se sobre permitir a doação destes embriões para casais que não geram embriões viáveis, assim, irmãos poderiam ser gerados em famílias totalmente estranhas e sem qualquer contato, vindo a se apaixonar sem qualquer conhecimento de serem irmãos. Esta é sem dúvida uma séria questão ética.

Primos poderiam ser considerados mais do que primos?

Sim, num evento raro de primos-irmãos serem filhos de casais formados por gêmeos monozigóticos. Por exemplo, imaginemos que os atores que representaram os gêmeos nos filmes da série Harry Potter (James e Oliver Phelps) se casassem com as irmãs do nado sincronizado brasileiro (Bia e Branca Feres).


Os possíveis filhos destes dois casais seriam legalmente considerados primos-irmãos, porém como seus pais são geneticamente idênticos, eles são, biologicamente, irmãos, pois o seu coeficiente de consanguinidade é ½ e o coeficiente de endocruzamento é ¼.

Nota: O Casamento de Isabella de Portugal com Charles V durou de 1525 a 1539 quando a rainha morreu, prematuramente, durante o parto de seu sexto filho. Esta união realizada com fins políticos, por procuração, tornou-se um reconhecido caso de amor. Tanto que, Charles V, após se tornar viúvo, usou somente roupas pretas até o final de sua vida, em 1558, e nunca mais se casou (Wikipedia). 

Referência:
BORGES-OSÓRIO, M.R. & ROBINSON, W.M. Genética Humana. Editora Universidade/UFRGS/Artes Médicas: Porto Alegre, 1993.

2 comentários:

  1. BAXTALE KReCHUNO
    thaj
    BAXTALO NEVO BERSH 2013
    Feliz Natal e Feliz Ano Novo de 2013
    COZINHA DOS VURDÓNS E HOMEOPATAS DOS PÉS DESCALÇOS
    PROJETOS AMSK/Brasil

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  2. Salve. Você tem mais exemplos de filmes e literatura que abordam relações consanguíneas, que possa compartilhar? Estou pesquisando o assunto para suporte e referência para trabalho sobre genealogia familiar.

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