28 março, 2011

Ensino de Ciências Naturais: trabalhando com Habilidades e Competências.

por

Lino de Macedo enfatiza que Competência é mais do que um conhecimento. Ela pode ser explicada como um saber que se traduz na tomada de decisões, na capacidade de avaliar e julgar.

Segundo o professor Vasco Moretto, um dos sentidos de competência aflora na utilização da palavra no senso comum quando utilizamos expressões como "vou procurar um dentista, mas quero que seja competente", ou "meu irmão é um pianista competente". Todas elas têm o mesmo sentido: uma pessoa é competente quando tem os recursos para realizar bem uma determinada tarefa.

A expressão isolada "fulano é competente" não tem muito sentido, provocando outra pergunta: "competente para fazer o quê?" Poderíamos dizer que Ronaldinho é mais, ou menos competente que Guga?


O conceito de competência pode ser relacionado à capacidade de bem realizar uma tarefa, ou seja, de resolver uma situação complexa. Para isso, o sujeito deverá ter disponíveis os recursos necessários para serem mobilizados com vistas a resolver a situação na hora em que ela se apresente.

Nesse contexto, educar para competências é, então, ajudar o sujeito a adquirir e desenvolver as condições e/ou recursos que deverão ser mobilizados para resolver a situação complexa. Isso é o que se deseja para a escola do século XXI, que deverá mudar alguns paradigmas fundamentais.

O que deve caracterizar a Escola do Século XXI?
Ela deverá ter como Princípio Fundamental : o direito de aprender. Seus Conteúdos devem se constituir em meios para desenvolver competências e habilidades. O Currículo deve se pautar pela interdisciplinaridade e contextualização.

As Metodologias adotadas visam a construção do conhecimento orientada pelo professor. Assim o Professor assume o papel de orientador e mediador, enquanto o Aluno é protagonista e ativo. Para que isto se estabeleça, o Espaço e o Tempo da Escola devem ser administrados de forma a se tornarem diversificados e flexíveis.

Como será possível transformar a Escola sem perdê-la ou nos perdermos no processo?


Estas mudanças de paradigma necessitam de instrumentos orientativos para que não se chegue a um beco sem saída. Para isso foram criado alguns Parâmetros Curriculares.

Os parâmetros do MEC explicitam 5 competências Gerais para a Educação Básica:

1- Dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica.

2- Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos históricos e geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas.

3- Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações, representados de diferentes formas para tomar decisões e enfrentar situações problema.

4- Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas para construir argumentação consistente.

5- Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.

Simplificando, temos: domínio de linguagens; compreensão de fenômenos; construção de argumentações; solução de problemas e elaboração de propostas!

Nesse contexto, a excessiva ênfase na compartimentalização em disciplinas é uma das coisas que dificultam o desenvolvimento de competências. Tanto o ensino fundamental quanto o médio têm tradição conteudista. Na hora de falar de competência mais ampla, carrega-se no conteúdo.

Não estamos conseguindo separar a ideia de competência de conteúdos, a escola traz para os alunos respostas para perguntas que eles não fizeram: o resultado é o desinteresse. Como destaca Vasco Moretto, as perguntas são mais importantes que as respostas!

Assim, para concretizar estas competências básicas, a Escola e os professores devem resolver, também, outras questões fundamentais: 

1- A escola deve ser capaz de concretizar os princípios da interdisciplinaridade, contextualização do currículo e organização e aproveitamento do tempo escolar.

2- A interdisciplinaridade deve começar pelo planejamento conjunto e cooperação entre os professores das diferentes disciplinas.

O professor é um elemento chave na organização das situações de aprendizagem, pois lhe compete dar condições para que o aluno "aprenda a aprender": 1-desenvolvendo situações de aprendizagens diferenciadas e 2-estimulando a articulação entre saberes e competências.

Para isso, de forma mais detalhada, o ENCCEJA e os PCN definem as seguintes Competências para o Ensino de Ciências Naturais:

C1- Compreender a ciência como atividade humana, histórica, associada a aspectos de ordem social, econômica, política e cultural.

C2- Desenvolver a reflexão crítica e a flexibilidade para encarar o conhecimento como provisório e não pronto e acabado.

C3- Compreender que os conhecimentos científicos e tecnológicos estão a serviço da humanidade, identificando riscos e benefícios neles envolvidos.

C4- Compreender a natureza como um sistema dinâmico e o ser humano, em sociedade, como um de seus agentes de transformação.

C5- Compreender a saúde como bem pessoal e ambiental que deve ser promovido por meio de diferentes agentes, de forma individual e coletiva.

C6- Compreender o próprio corpo e a sexualidade como elementos de realização humana, valorizando e desenvolvendo a formação de hábitos de autocuidado, de autoestima e de respeito ao outro.

C7- Aplicar conhecimentos de ciência e tecnologia e procedimentos de investigação científica em diferentes contextos, buscando alternativas satisfatórias.

C8- Compreender o Sistema Solar, enfatizando a Terra em sua constituição geológica e planetária própria, situando o ser humano no espaço e no tempo em relação ao Universo.

C9- Revisar concepções e reavaliar resultados (Resolver problemas).

C10- Respeitar a vida do próprio sujeito e demais seres vivos do planeta. 

C11- Encontrar soluções para os problemas da sua comunidade. 

C12- Avaliar a disponibilidade e os processos para obtenção e utilização de recursos materiais e energéticos (sustentabilidade ambiental).

Como muda o papel do aluno?
Em lugar de continuar a decorar conteúdos, o aluno passará a exercitar habilidades, e através delas, a aquisição de grandes competências, ou seja, desenvolverá habilidades através dos conteúdos.

Habilidades através dos conteúdos de Ciências Naturais.

Exemplos:
I. Habilidade 1- Relacionar diferentes explicações propostas para um mesmo fenômeno natural.

Competência relacionada: 3- Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações (representados de diferentes formas) para tomar decisões e enfrentar situações problema.

Conteúdos: Ciclo da água e enxurradas.


Metodologia:
a) Pesquisar notícias e relacionar as enxurradas com as diferentes causas: chuva muito forte, rios assoreados e bueiros entupidos por lixo.

b) Montar experimento para investigar o efeito da cobertura vegetal (mata ciliar) na conservação de rios.

II. Habilidade 6 - Reconhecer argumentos pró ou contra o uso de determinadas tecnologias para solução de necessidades humanas, relacionadas à saúde, moradia, transporte, agricultura etc.

Competência relacionada: 12- Avaliar a disponibilidade e os processos para obtenção e utilização de recursos materiais e energéticos (sustentabilidade ambiental).

Conteúdos: Energia atômica, poluição luminosa, fontes alternativas de energia.
 
Metodologia: Debater e comparar os acidentes em usina nuclear do Japão, propondo os seguintes questionamentos: Precisamos manter e, mais ainda, aumentar os níveis atuais de consumo de energia (observe a imagem da Terra à noite)? Haveria outras tecnologias para obtenção de energia, mais apropriadas às condições naturais do Japão?

Abaixo, destacam-se as demais habilidades relacionadas aos conteúdos das ciências naturais:

H2- Estabelecer relações entre transformações culturais e conhecimento científico e tecnológico.

H3 - Identificar, em representações variadas, fontes e transformações de energia que ocorrem em processos naturais e tecnológicos.

H4- Identificar processos e substâncias utilizados na produção e conservação dos alimentos, e noutros produtos de uso comum, avaliando riscos e benefícios neles envolvidos.

H5 - Associar a solução de problemas da comunicação, transporte, saúde (como epidemias) ou outro, com o correspondente desenvolvimento científico e tecnológico.

H7- Relacionar diferentes seres vivos aos ambientes que habitam, considerando características adaptativas.

H8- Identificar, em situações reais, perturbações ambientais ou medidas de recuperação.

H9 - Relacionar transferência de energia e ciclo de matéria a diferentes processos (alimentação, fotossíntese, respiração e decomposição).

H10 - Relacionar, no espaço ou no tempo, mudanças na qualidade do solo, da água ou do ar às intervenções humanas.

H11- Identificar variações em indicadores de saúde e de desenvolvimento humano, a partir de dados apresentados em gráficos, tabelas ou texto.

H12- Associar a qualidade de vida, em diferentes faixas etárias e em diferentes regiões, a fatores sociais e ambientais que contribuam para isso.

H13 - Relacionar a incidência de doenças ocupacionais, degenerativas e infectocontagiosas a condições que favorecem a sua ocorrência.

H14 - Selecionar alternativas de condições de trabalho e/ou normas de segurança em diferentes contextos, valorizando o conhecimento científico e o bem estar físico e mental de si próprio e daqueles com quem convive.

H15- Reconhecer funções e localização de diferentes órgãos ou sistemas do corpo humano, suas disfunções ou doenças a eles relacionados.

H16 - Associar problemas de saúde a sintomas, testes diagnósticos simples ou possíveis consequências da automedicação.

H17 - Relacionar saúde com hábitos alimentares, atividade física e uso de medicamentos e outras drogas, considerando diferentes momentos do ciclo de vida humano.

H18 - Analisar o funcionamento de métodos anticoncepcionais, reconhecendo a importância de alguns deles na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

H19 – Selecionar propostas em prol da saúde física e mental dos indivíduos ou coletividade, em diferentes condições etárias, culturais ou socioambientais.

H20 - Interpretar informações contidas em rótulos, embalagens, bulas, receitas, manuais de instrumentos e equipamentos simples.

H21 - Avaliar produtos de uso cotidiano (limpeza, higiene, alimentos, medicamentos ou outros).de mesma finalidade, baseando-se em suas propriedades.

H22 - Relacionar comportamento de variáveis em observação ou experimentação de fenômenos naturais.

H23 - Avaliar riscos e benefícios de procedimentos para solução de problema real, considerando o interesse coletivo.

H24 – Diagnosticar situações do cotidiano em que ocorrem desperdícios de energia ou matéria, propondo formas de minimizá-las.

H25 - Empregar linguagem científica (nomes, gráficos, símbolos e representações) para descrever a constituição ou a dinâmica da Terra e do Sistema solar.

H26 - Relacionar diferentes fenômenos cíclicos como dia e noite, estações do ano, climas, fases da lua, marés e eclipses aos movimentos da Terra e da Lua.

H27 - Relacionar características do planeta Terra com fenômenos naturais ou induzidos pela atividade humana.

H28 - Relacionar diferentes recursos naturais – seres vivos, materiais ou energia – a bens de consumo utilizados no cotidiano.

H29 - Compreender o significado e a importância da água e de seu ciclo em sua relação com condições sócio-ambientais.

H30 – Analisar propostas de uso de materiais e recursos energéticos, tendo em vista o desenvolvimento sustentável, considerando características e disponibilidades regionais (de subsolo, vegetação, rios, ventos, oceanos etc.).

AÇÕES PEDAGÓGICAS BÁSICAS PARA TRABALHAR COM CIÊNCIAS NATURAIS SEGUNDO O PROJETO LIÇÕES DO RIO GRANDE:

I- LER & ESCREVER.

Nesse sentido o Ensino de Ciências deve se tornar mais conceitual, incluindo a Leitura e produção de textos sem o uso excessivo de fórmulas prontas. Isso não descarta sua característica fundamental de usar símbolos, gráficos e tabelas, mas destaca a crítica sobre os Modelos científicos e a abordagem de Analogias e Metáforas.

II- RESOLVER PROBLEMAS.

Nas Ciências naturais se resolve problemas ao organizar e refletir sobre as práticas. Para isso, os educadores podem recorrer à “Pedagogia da pergunta” de Freire, propondo desafios possíveis e dando espaços para a Invenção e a criatividade dos alunos.

Referências:
1- ENCCEJA- Matriz de Competências, disponível em: http://encceja.inep.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=51&Itemid=59
2- RIO GRANDE DO SUL. Secretaria de Estado da Educação. Departamento Pedagógico. Referenciais Curriculares do Estado do Rio Grande do Sul: Ciências da Natureza e suas Tecnologias. Porto Alegre : SE/DP, 2009.
3- Thereza Bordoni- Mestre em educação. Consultora do Projeto Linha Direta. Consultoria e Desenvolvimento e do site www.vaganaescola.com.brSaber e Fazer .... Competências e Habilidades ?!? 
4- Vasco Moreto – Perguntas em EAD para o processo da construção de COMPETÊNCIAS (palestra). SEBRAE disponível em: http://www.comunidade.sebrae.com.br/educacao/Documentos+para+download/8798.aspx

Fontes das imagens:
1- Il dentista low cost por Frederica Venni
2- Montagem Ronaldinho X Guga – Te Liga.
3- Bússola de Eduardo Castro.
4- Enxurrada por Hoje-Portugal - Madeira: especialista diz que é um erro reconstruir o que a enxurrada levou
5- Terra à noite por Cibercultura, modificado por Te Liga.

Um comentário:

  1. Anossa admiração já é antiga,vale a pena reforçar.

    com carinho,

    http://homeopatiaparamulheres.blogspot.com/2011/03/um-premio-uma-joia-entre-amigos.html

    Homeoptas dos Pés Descalços

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