01 março, 2009

A RELAÇÃO SOCIAL E O PENSAMENTO SIMBÓLICO

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A teoria piagetiana preconiza que a função simbólica é o resultado de um processo construtivo e não da maturação de estruturas pré-formadas. Seu surgimento possibilita o sistema de signos coletivos, bem como a constituição do espaço representativo e outras categorias reais do pensamento.

Embora a aquisição da linguagem dependa do estabelecimento de uma função simbólica, esta última depende da interação dos sujeitos com um ambiente simbólico, que tensionará esse desenvolvimento cognitivo.

A linguagem oral do homem é uma, mas não a única manifestação de uma função simbólica muito geral. O livre desenvolvimento do pensamento simbólico não é obstruído pelo uso de sinais em lugar das vocalizações. Todavia, é necessário o estabelecimento de conexões nervosas para utilização da experiência e desenvolvimento da função simbólica e, para tanto, há necessidade do estabelecimento de comunicação social com estes sujeitos.
Os símbolos humanos se caracterizam por sua versatilidade e flexibilidade. As crianças normais aprendem que podem usar vários símbolos para expressar o mesmo desejo ou pensamento. Sem um complexo sistema de símbolos o pensamento relacional não pode nascer, nem desenvolver-se plenamente. Logo, o progresso da inteligência humana a partir do período sensório-motor, supõe a construção de símbolos e o emprego progressivo dos signos sociais.

A interação do sujeito com seu meio caracteriza-se como um processo que começa egocentricamente e progride em direção à socialização. No início, a representação infantil envolve a predominância dos processos individuais da vida mental sobre os fatores coletivos da qual deriva.

Piaget enfatiza que os dois processos essenciais na constituição das formas primitivas e pré-verbais da inteligência são a assimilação e acomodação sensório-motoras, as quais se convertem em assimilação e acomodação mentais no início da representação. A representação começa quando há diferenciação e coordenação entre significantes e significados [1]. O significado é fornecido pela assimilação que através do jogo incorpora o objeto aos esquemas anteriores, fornecendo-lhe uma significação.

Ramozzi-Chiarottino [2] salienta que a percepção nunca é passiva, pois depende de imagens mentais construídas, que embora imitem o meio ambiente não são cópias fotográficas de tudo aquilo que seria o “dado”, mas abstrações de alguns elementos do real, selecionado de acordo com a “capacidade de perceber” de cada um, portanto, elaborado a partir de informações assimiladas do meio.

Assim, a linguagem é adquirida numa certa idade e não em outra, de acordo com certa ordem, à medida que a criança vai se tornando capaz de sofrer as influências das relações sociais. Logo, os fatores sociais nada explicam por si sós, embora sua intervenção seja necessária ao desabrochar da razão [1].


Para Piaget, a sociedade permite a construção dos conceitos, mas a possibilidade que o indivíduo tem de construir representações conceituais é uma das condições necessárias para que ele receba a influência do meio e para que possa adquirir linguagem [2].

Uma vez aptos a construir representações conceituais, passamos a sofrer mais intensamente as influências da vida social, o que nos permitirá a aquisição da linguagem e a construção de conceitos. Todavia, a linguagem não exclui nunca a intervenção dos significantes individuais, que continuam a ser as imagens imitativas interiores.

No homem, desenvolveu-se uma capacidade de isolar relações e considerar seu significado abstrato. Para apreender este significado, o ser humano não pôde mais depender dos dados concretos dos sentidos. Nem mesmo na geometria elementar estamos atados à apreensão de figuras concretas individuais, pois estudamos relações espaciais universais para cuja expressão há um simbolismo adequado. Sem a etapa preliminar da linguagem, tal realização não seria possível. Segundo Cassirer [3], se há certos vestígios de uma distinctio rationis no mundo animal, eles não conseguem desenvolver-se, pois não contam com a ajuda inestimável e indispensável como o da fala humana com seu sistema de símbolos.

Nas palavras de Maturana e Varela [4], como humanos, somos inseparáveis dos acoplamentos sociais estabelecidos através da linguagem. A “invenção” da linguagem não pode ser atribuída a um sujeito isolado para apreensão de um mundo externo e, portanto, não pode ser usada como ferramenta para revelar tal mundo. Encontramos a nós mesmos num acoplamento lingüístico, não como origem de uma referência, nem em referência a uma origem, mas sim em contínua transformação no vir a ser do mundo que construímos com os outros seres humanos. A sensação é de não termos um ponto de referência fixo e absoluto.

Resta então, entender, por que a inteligência humana escolheu esse caminho indireto. Por que há uma permanente “interposição” de um meio simbólico ou “artificial” entre o ser humano e seu meio?

O termo artificial utilizado por Cassirer [3] caracteriza o fato de que cada indivíduo necessita construí-lo de novo. Isto estabelece um forte elo com a interpretação piagetiana de que cada indivíduo, para integrar-se ao mundo tão particularmente humano, precisa construir uma função simbólica, necessária ao estabelecimento das relações sociais humanas.

A informação e evolução estão ligadas, pois ao comparar sistemas biológicos simples como bactérias com outros de maior complexidade como os mamíferos, verifica-se que nos últimos o patrimônio de informação genética é muito maior. Há também outros compartimentos onde se estoca informação: os neurônios, que armazenam “informação neuronal”. Se considerarmos as relações entre volume cerebral com o desenvolvimento filogenético do homem, vemos que estão positivamente correlacionados, pois ao longo das espécies de hominídeos, quanto maior o volume do crânio maior é seu desenvolvimento cultural.

Segundo Carl Sagan, se tivéssemos em nosso cérebro apenas um neurônio com uma sinapse capaz de duas posições, ligada ou desligada, teríamos apenas dois estados mentais. Com três neurônios, oito estados, que equivalem a um bit de informação. Calculando-se em média no ser humano mil sinapses por neurônio e uma média de dez bilhões de neurônios no córtex, pode-se supor uma ordem de dez trilhões de bits programáveis, por indivíduo [5].

Nossos dez trilhões de sinapses podem nos conferir um número de estados mentais, maior do que o número calculado de átomos para o universo. Portanto é impossível ocupar todos os estados cerebrais possíveis durante uma vida, mas ao considerar o conjunto dos indivíduos, teremos uma ampla possibilidade de variação, que estará sujeita aos vínculos genéticos, hábitos sócio-culturais e todas as limitações do comportamento [5].

Dos répteis aos humanos, o número de neurônios programáveis aumentou consideravelmente. Assim, a disposição de cada indivíduo, ao nascer, a natureza coloca uma grande quantidade de neurônios “em branco”, programáveis pelo próprio indivíduo em sua interação com o ambiente. Com o aparecimento deste banco de memória programável, não apenas o ser humano, como outros mamíferos, principalmente os primatas se tornaram capazes de aprender ou educar-se, modificando seu comportamento.

A capacidade de criação de uma linguagem simbólica criou para o ser humano uma nova possibilidade: o armazenamento de informação extra-somática. Assim, com símbolos adequados e o uso da memória tornou-se possível guardar informação fora dos neurônios através da linguagem e escrita, permitindo que esta informação se tornasse transmissível para outros indivíduos.

Como enfatizam Maturana e Varela [4], a história evolutiva humana está intimamente relacionada à sua linguagem. Para tanto, foi selecionada uma plasticidade comportamental que possibilita seu advento e permite a conservação da adaptação do ser humano. Assim a coerência e harmonia nas interações sociais dependem da coerência e harmonia do desenvolvimento do ser humano.

Como qualquer outro animal, nossa sobrevivência depende da adaptação ao meio. Para a biologia, a adaptação representa uma conquista e não uma submissão. Resumidamente, adaptação é a sobrevivência do indivíduo e da espécie, através de processos que aliem, ao máximo, complexidade estrutural e baixo consumo energético. Desse modo, o número grande de indivíduos ou ambientes em que é encontrada uma espécie, pode atestar seu sucesso adaptativo. Sob estes aspectos, a eficácia adaptativa da espécie humana é inegável, até o presente momento.

Não nascemos “prontos” mas “por fazer”. Todavia não começamos do “zero”. Em relação ao desenvolvimento do sistema nervoso, já nascemos com alguns neurônios predestinados a responder a determinados estímulos. Foram detectados, em macacos, neurônios gnósticos, que entravam em intensa atividade, assim que a imagem do rosto de um macaco adulto era apresentada a um filhote, pela primeira vez. A imagem do rosto de macaco adulto desencadeava intensa atividade nervosa em alguns neurônios. Supõe-se que tal atividade desencadeada, aliada ao comportamento subseqüente do filhote, propicia o desenvolvimento das redes neurais responsáveis pelo reconhecimento da espécie [6].

Como em todos os outros mamíferos, os nossos neurônios do córtex visual, logo que começam a receber estímulos luminosos, entram em atividade e desencadeiam a atividade de outros neurônios, gerando um ambiente elétrico e químico, que induzirá a formação de novas sinapses [7]. O desenvolvimento cerebral se dá através da estruturação de redes neurais, bem como da gravação de informações a partir da interação do organismo com o meio.

Para Maturana e Varela [4], todo mecanismo de geração de nós próprios como agentes de descrições e observações nos explica que nosso mundo, bem como “o mundo que produzimos com os outros é uma mescla de regularidade e mutabilidade, uma combinação de solidez e areias movediças tão próprias da experiência humana”.

Piaget sempre enfatizou que a ação própria do sujeito é indispensável para a inteligência. Salientou, ainda, que, a partir de comportamentos elementares herdados, cujo desenvolvimento possibilita uma inteligência sensório-motora, construímos uma função simbólica, da qual dependerá a inteligência lógico-matemática.

Ao simbolizar ampliamos a nossa capacidade perceptiva, o que nos leva de volta a uma questão de não dispormos de capacidade cerebral para interpretar todos os estímulos a que estamos expostos, necessitamos filtrá-los, pois nossa sobrevivência depende de limites, que são definidos pelos filtros que construímos, os quais nos delimitam como indivíduos, dando sentido às nossas emoções, ritmo aos nossos movimentos, cor aos nossos sonhos e roupagem aos nossos desejos, enfim, traduzindo-nos para nós mesmos.

Referências e notas:
[1]- PIAGET, Jean. [1945] A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho; imagem e representação. Rio de Janeiro : Livros Técnicos e Científicos S.A., 1990.
[2]- RAMOZZI-CHIAROTTINO, Zélia. Psicologia e epistemologia genética de Jean Piaget. São Paulo : EPU Ltda, 1988.
[3]- CASSIRER, Ernst. [1944]. Ensaio sobre o homem : introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo : Martins Fontes ltda, 1997.
[4] MATURANA, Humberto R. ; VARELA, Francisco G. A árvore do conhecimento: As bases biológicas do entendimento humano. Campinas : Editorial Psy II, 1995.
[5]- MASCARENHAS, Sérgio. Biofísica da informação e evolução da Inteligência. Ciência e Cultura. São Paulo, v. 30, n. 4, p. 405 - 414, 1978.
[6]- Resumo publicado em encarte da 43ª Reunião Anual da SBPC, na revista Ciência Hoje, vol. 13, n.º 75, agosto, 1991.
[7]- As sinapses se constituem na conexão entre diferentes neurônios. São estabelecidas pelo desenvolvimento de prolongamentos neuronais (dendritos e terminais axônicos) desencadeado pela atividade neuronal, a qual depende dos estímulos recebidos. Tais estímulos podem ser recebidos de forma passiva, como a percepção de oscilações luminosas ou sonoras, bem como, provir das atividades decorrentes da ação consciente do sujeito sobre o meio.

Imagens:
1- Revista Eletrônica de Ciências

2- De tudo um pouco

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