29 Novembro, 2007

Estados alterados de consciência-2

Depois que descobri os seres de luz, a minha vida mudou completamente em função deles. Meu anseio é encontrá-los e depois das experiências, me vejo enclausurado na escuridão da existência comum.

E vieram os dois anjos a Sodoma
à tarde, e estava Ló assentado à
porta de Sodoma; e vendo-os Ló,
levantou-se ao seu encontro, e
inclinou-se com o rosto à terra.
GÊNESIS 19,1

Fui agraciado com o dom para descobrir as criaturas “especiais” que andam incógnitas nas ruas. E não são tão raras como se pensa. Amiúde os encontro praticamente levitando no meio da multidão, todos dotados da mesma alvura de pele e gestos silenciosos e grandes buracos luminosos à guisa de olhos. Quando me percebem, provocam um estalo na minha cabeça como torvelinho de imagens bizarras. Então me viciei na experiência como se fosse uma droga. Abandonei os meus projetos de vida para encontrá-los, minha nova rotina são longas caminhadas de espreita até alcançar a luz. Quando vejo sóis estranhos e planetas gigantescos e humanidades remotas na poeira dos mundos, ao longo de um tempo indefinido, até que me largam como quem se enfada com uma formiga e desaparecem. Sim, eles realmente se desintegram no ar. Mesmo que seja em espaço público, eles tanto se materializam, como se desintegram. Nenhum dos transeuntes percebe esses grandes acontecimentos, nem a luz que brota deles criando um efeito bolha de mais de 10 metros de extensão ao seu redor.

27 Novembro, 2007

Descobrindo um perscrutador-1

Um encontro casual com um estranho ser, termina mudando o curso de uma vida. A partir dali nada mais foi o mesmo, já que uma estranha obscessão se apoderou do personagem.
Morfeu por Cadu

Examina-me, Senhor e prova-me;
esquadrinha os meus rins e o meu coração.
Salmos 26,2

Num dia qualquer de uma cidade qualquer eu o vi. Antes, sempre imerso em meus próprios pensamentos e absorto em sonolência, devo ter esbarrado com ele inúmeras vezes, mas agora, estava ali o milagre da visão como que emergindo repentinamente da névoa. Um ser altivo, muito branco quase levitando no meio da multidão. Sua tez absolutamente alva e sem manchas se ressaltava perante nós outros.

Minha surpresa foi suficiente para que os meus desígnios anteriores fossem esquecidos; passei a seguir o sujeito, obcecado pelo brusco irrompimento havido na minha percepção. De que valiam os meus compromissos, se o sentido da vida podia estar ali, branco quase translúcido. Enquanto o turbilhão de indagações me assaltava a cabeça, via que os transeuntes apenas desviavam da esbelta figura, sem desviarem os olhos do seus próprios pensamentos. Ora, seria pela sugestão do momento, ou eu estava percebendo uma mudança dos padrões de luminosidade ao redor da criatura?

Minha visão estava definitivamente descarrilando dos seus simples limites, quais sejam, o de me suprir de prosaicas imagens cotidianas capazes de me desviar de buracos e evitar objetos perigosos. Extrapolando suas funções sensório-motoras essenciais, ela me conduzia amarrado ao rastro de uma figura luminosa ao longo de ruas todas iguais. Ao parar, também parei numa distância respeitosa e segura, fazendo os trejeitos costumeiros de quem segue e não quer demonstrar que está seguindo, disfarçando para ser mais exato. Seus olhos claros, de um azul violáceo, contemplaram as redondezas e se depararam com os meus surpresos demais para se desviar daquele avassalamento, fui pego pela luz como saída da alta torre de farol devassando a névoa noturna.

E Jacó lhe perguntou, e disse: Dá-me,
Peço-te, a saber o teu nome. E disse:
Por que perguntas pelo meu nome?
E abençoou-o ali.
E chamou Jacó o nome daquele lugar
Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus
Face a face, e a minha alma foi salva.
Gênesis, 32,29-30


Sob o olhar me senti transportado a tempos imemoriais em que os imortais reinaram sobre a terra. Fui inundado pelo fogo perscrutador daquele olhar por imagens sem nome e sem nexo que reduziram a minha atual existência a um suspiro flutuante na imensidão do caos. Apesar do turbilhão humano persistir em sua monótona passagem ao nosso redor, eu estanquei abduzido pela sensação irrompida ante o ser vindo de uma outra realidade, onde permanecemos imóveis por tempo indefinido.

Emudecido, fui inundado por respostas a perguntas nunca buscadas, jorrando na minha mente sob a forma de um “tsunami” arrasador. Seu nome impronunciável conheci e também os desdobramentos de alguns aspectos da sua existência. Jamais saberei do significado daquela profusão de vivências em tão curto espaço de tempo. Nunca entendi se ele era um ser de outro planeta, ou um Deus perambulando entre as pessoas. A sua real estatura me escapuliu totalmente, assim como a maior parte da significação do mar de conhecimentos que se abateu sobre mim rugindo daqueles olhos, buracos violáceos de luz profunda que me arrancaram dos trilhos da vida ordinária e me deixaram flutuando até hoje longe das minhas antigas certezas.

Enquanto aquele mar de gente se acotovelava ao nosso redor, fui sorteado a contemplar uma janela para o infinito, ciceronado pelos “olhos de Deus”, porém logo depois largado à minha própria sorte sob a nulidade do pequeno viver. É justo acordar alguém para entregá-lo aos braços do vazio?

palavras-chave: contos, iluminação, realidade de ficção científica, vida ordinária, mudança de hábitos

Por: Isaias Malta
Desenho de Cadu

26 Novembro, 2007

Felicidade é um estado interno

O caminho que leva à felicidade necessariamente deve passar pela compreensão dos valores que cada um tem dentro de si. Quando a felicidade for compreendida como um estado interno e não devido a contingenciamentos externos, muitas pessoas que hoje sofrem com o ódio e a ansiedade, poderiam resolver o problema da dor psicológica.

PRAZERES
É importante compreender mais sobre eles. A humanidade em seu início surgiu em ESTADO DE FELICIDADE, estando em consonância com toda criação e com o Criador. Mas para consolidar as virtudes, elas têm que ser postas à prova, e tudo era permitido, menos profanar a Energia Criadora. Pois foi nesse ponto que o Tentador Psicológico, ou seja, a sombra do Criador, empenhou todo seu esforço, colocando na profanação uma quantidade muito grande de prazer. Dentro do livre arbítrio concedido à humanidade, houve os que optaram pelo prazer, e os que optaram por permanecer em felicidade. A opção de passar por uma prova, resistindo ao prazer, vai consolidando a consciência. É assim que uns desceram e outros ascenderam. Nós fazemos parte da humanidade caída, que optou pelo prazer, e se tornou escrava dele. A humanidade ascendida vive em outro estado vibracional, e não está entre nós, com exceção de alguns, que por SACRIFÍCIO E AMOR, vêm para ajudar a despertar àqueles que estão dispostos a mudar suas opções, ou seja, a começar a sacrificar os prazeres em prol da felicidade. Mudar de opção é algo que está ao alcance de todos, basta QUERER. A dificuldade está em se dispor a sacrificar os prazeres, para isso é preciso compreensão. Todo prazer carrega junto, em um peso igual e matemático, a dor. Não existe prazer sem dor. E o interessante é que queremos sacrificar a dor, e fracassamos sempre.

O tentador se especializou na elaboração dos prazeres, e hoje em dia são milhares, milhões... , e cada vez aparecem novidades. Ele procura nos manter sempre ocupados, cada vez mais desejosos, sem tempo de refletir, de questionar e de mudar de opção.

Aqueles que começaram a mudar a opção, mudando suas atitudes, começam a vibrar em uma freqüência diferente, suas Almas ganham Luz, e inevitavelmente passam a “ter mais valor no mercado” e tanto os que são da Luz, como os do escuro lutam por ela. Os primeiros dão força, entusiasmo, compreensão, proteção e certas ajudas que são difíceis de entender. Primeiro nos cobram o esforço para depois nos dar o prêmio, e vamos conseguindo ter percepções do estado de felicidade. Os segundos nos oferecem prazer através de cargos, poder, posses, domínio etc. Primeiro nos dão o prêmio para depois nos cobrar, e como pagamos com dor, vamos cada vez mais nos afastando da felicidade.

O CRISTO
O Cristo começa a nascer dentro de cada um de nós na medida em que começamos a Amar. Ele não é um santo, mas um guerreiro, que vem trazer Luz a escuridão e “expulsar os mercadores do templo”.
Chicoteamos e crucificamos o Cristo quando reclamamos, julgamos, criticamos, comparamos, quando criamos diferenças, quando escolhemos, quando somente toleramos, somente respeitamos, quando nos achamos superiores, quando nos achamos inferiores, quando preferimos odiar a amar, quando valorizamos mais o material do que o espiritual, quando nos vingamos, quando não acreditamos, quando não nos esforçamos. Mesmo que percamos a esperança, devemos manter o esforço.
Somos a mão o chicoteia ou a que segura o prego na sua crucificação. A mesma mão que lavamos ao não assumir estas responsabilidades.
O nascimento do Cristo dentro de cada um é um direito que temos. Ele quer nascer e encarnar em nós. Quer se unir ao Pai.

O AMOR
É o único caminho, a única saída. Meu Deus, porque é difícil ver isto, mas não basta ver, tem que se praticar, é um exercício diário.
Não sabemos perdoar porque não compreendemos. Se alguém nos prejudica confundimos as coisas, sentimos raiva e queremos que a pessoa seja punida. È correto que a pessoa pague pelos erros que cometeu, mas sentir raiva é uma escolha nossa, íntima, intransferível. Porque não podemos sentir amor e concordarmos com a punição. Os pais que punem os filhos não os amam?
O Amor também é confundido com os apegos, criamos dependências psicológicas em relação às pessoas, aos lugares, ao trabalho, que normalmente são um grande impedimento à compreensão do Amor. Existe uma grande diferença entre Amor incondicional e apego incondicional. As teias do apego nos prendem e nos impedem de ir adiante.

por: Marcus Franck

25 Novembro, 2007

A vida como Interação e Auto-Regulação

Os seres vivos interagem com o meio, estabelecendo trocas. Nesse processo, necessitam de sistemas de regulação, que impeçam a perda da individualidade, por esta razão, Piaget afirmava que a vida é essencialmente auto-regulação. Somos sempre um resultado da interação entre uma informação biológica com o seu contexto, não sendo possível separar uma coisa da outra ou repetir com exatidão os resultados de uma mesma receita.

O que é a vida?
É muito difícil definir o que é a vida, pois não há um conceito universalmente aceito que a defina. O que podemos fazer é caracterizá-la através das propriedades que os seres vivos apresentam.

Surge aqui um novo problema que é a definição do que seja um ser vivo, pois as características básicas de composição química, reprodução, evolução, metabolismo, organização celular, diferenciação celular, movimento e crescimento, geralmente caracterizados como manifestações vitais, não estão presentes simultaneamente em todos os seres vivos.

24 Novembro, 2007

Aquecimento Global: problema da espécie humana

A questão do aquecimento global tem aparecido insistentemente nos noticiários internacionais como sendo responsável pelo recrudescimento das catástrofes naturais. No entanto, os países continuam reticentes na vontade de diminuir suas emissões, retardando qualquer medida de impacto, porque representaria a renúncia ao paradoxo imposto como lei pelo capitalismo: o crescimento infinito em ambiente de recursos finitos.

A grande dificuldade no consenso das questões climáticas é que o mérito do problema remete à questão global. A primeira experiência histórica de um evento global que se tem notícia foi o dilúvio bíblico. Passados milhares de anos sucedeu-se o segundo evento através da deflagração da primeira guerra mundial, onde pela primeira vez forma usados todos os limites geográficos da terra. O segundo evento aconteceu algumas décadas mais tarde sob o maior conflito armado da história: a segunda guerra mundial que redesenhou o mapa geopolítico, arrasou impérios e criou outros e, pela primeira vez, plantou a semente da necessidade de superação das fronteiras geográficas, porque elas já não mais davam conta dos problemas emergentes que afetavam o ser humano enquanto gênero.

Depois dos eventos globais acima mencionados, está na ordem do dia um outro mais formidável ainda apontados pela série de estudos científicos sobre a composição da fina atmosfera terrestre, reveladores de que ao longo dos poucos anos da era industrial(um século), o frágil equilíbrio dos gases componentes da atmosfera foi severamente afetado, desbalanceado pelo incremento das emissões dos tipos de gases provocadores do efeito estufa (dióxido de carbono, ozônio, metano, óxido nitroso, etc).

Ironicamente, o efeito estufa não se configura em malefício dentro de certos limites, porque graças a ele a terra não é um mundo hostil coberto de gelo. Uma parte da irradiação solar é aprisionada pela atmosfera pela estrutura molecular dos gases estufa, criando condições favoráveis à vida, pois temperatura média anual de 15º Celsius é mantida no planeta. A estabilidade dessa equação se manteve até o surgimento da era industrial, que trouxe consigo a produção em massa, alimentada pela energia suja de carvão e petróleo.

Até hoje, grande parte da matriz energética humana se baseia em fontes sujas, altamente poluidoras, emissoras de gases de estufa, e não renováveis. Assim, quando a opção humana pela busca do atendimento das suas necessidades básicas de alimentação, higiene, vestimenta, transporte, conforto térmico e lazer não levou em conta a discrepância da exploração infinita em cima de recursos finitos, armou a bomba relógio do prazo de validade do novo estilo de vida. Ao cabo de um pouco mais de cem anos de exploração sistemática, graças se atingiu um status de conforto impensável na era pré-industrial, chegou a hora de pagar a conta pelas escolhas feitas pelas gerações passadas, daquilo que foi destruído em nome do lucro e do desenvolvimento.

Porém o nosso problema é antes de filosófico, do que prático, pois o capitalismo unido ao ideal burguês da liberdade do sujeito, concede ao indivíduo a opção de definir os seus gastos de acordo com os limites do seu poder aquisitivo, instaurando a lógica do “quem tem mais gasta mais e quem tem menos gasta menos”, sem outras preocupações senão a da obtenção de maiores quantidades possíveis de dinheiro para realizar os sonhos de consumo, sem outros freios, senão aqueles impostos pelo tamanho das contas correntes e capacidade de endividamento.

O paradoxo imposto pelos novos desafios podem ser postos da seguinte maneira: se por um lado as conquistas tecnológicas proporcionaram os maiores índices de bem estar que a humanidade já conquistou durante a escalada histórica, por outro, graças às conquistas tecnológicas, o homem tem alterado tão irreversivelmente o seu ambiente, que a cessação total de todas as agressões, não seria suficiente para reverter os danos ambientais no prazo de um século.

CONTINUA...

Por: Isaias Malta
Imagem: Blog do Sereno

23 Novembro, 2007

Gênesis revisto

Uma releitura do Gênesis bíblico que avança um pouco além da simbologia, abordando o caos decorrido depois que os edeanos se fascinam com o poder criador, e passam a exercer eles próprios a prerrogativa da reprodução.

No início só existia a desordem, o mundo não tinha forma e as coisas se confundiam. Então o Pai criou o Fogo, a terra, a Água e o Ar, e colocou-lhes em movimento. Depois povoou a Terra com toda espécie de plantas e animais que ali habitaram por um tempo que não se conta. Faltava algo, e o Pai mandou seu Primogênito para que colocasse ordem em todas as coisas. E assim foi feito, o mundo estava completo e funcionava na mais perfeita harmonia, o Pai estava sempre presente em todos os momentos. Havendo necessidade de avanço, o Pai ensinou ao Filho os poderes sobre o Fogo, e disse-lhe que ele não poderia trabalhar sozinho com esse elemento, para isso deu-lhe uma esposa, para que juntos trabalhassem na Forja, e nela poderiam criar tudo, menos o que fosse da competência do Pai, ou seja, outros homens e mulheres, pois isto ainda não o podiam fazer.

O domínio sobre o Fogo foi ficando cada vez maior, e podiam criar maravilhas, mas chegou um tempo em que isto não lhes pareceu suficiente e, desobedecendo, começaram a criar homens e mulheres, e esses também auxiliavam a ampliar a povoação, o Pai se afastou e as coisas todas mudaram, sem a sua presença direta o casal primogênito assumiu um comando independente, e a multiplicação aumentou. Os novos filhos, mesmo sem a presença direta, sentiam a força do Pai, o que atrapalhava os planos daqueles que cada vez mais se afastavam, fascinados com a própria criação e com o poder que parecia ilimitado. Como os novos nascidos ficavam divididos entre a Força do Pai e o comando dos criadores, esses distribuíram poderes e criaram muitas distrações, e a maioria se encantou, e sentiam cada vez menos a Grande Força, com exceção de uns poucos que não se deixavam ludibriar, e buscavam o caminho do Pai.

Passado um tempo, as coisas estavam piores, o Pai em sua ira fez sobre a terra grandes cataclismos, obrigando os primogênitos e muitos de seus comandados se afugentar nas profundezas escuras da terra, não dando a eles mais o direito de ver a Luz. Mas mesmo sem a sua presença, continuou havendo sua influência sobre cada filho dos seus filhos nascidos naquele mundo, porque continuavam com poderes, e esses cada vez mais escuros e perversos. Apegados aos filhos e toda sua descendência, lutavam incansavelmente pela sua posse. Aos filhos, porém, é dada a escolha, podem seguir livres o caminho que desejarem. Mas por mais longe que estejam, os primogênitos reconhecem a hierarquia do Pai, mas permanecem na escuridão devido a contínua desobediência, insistem em continuar com a sua própria criação, com sua própria obra, e na verdade são eternamente frustrados, pois gostariam que ela fosse aprovada pelo Pai. Isto faz com que a rebeldia aumente e mergulhem cada vez mais na escuridão.

Para renovar a ordem, o Pai faz nascer na terra o seu segundo Filho, colocado e nascido do ventre de uma Mãe pura de Coração e Espírito, veio para dar uma direção a todos os que na terra haviam. E todos que Nele acreditavam, passavam a perceber novamente a Força do Pai e preferiam a Luz à escuridão. Como o novo Filho também nasceu na terra, teve a influência do primogênito, que reconhecendo seu poder, ofereceu-lhe todo o seu reino e todo o poder que quisesse, mas Esse de natureza diferente, pois era Obediente ao Pai, não aceitou a proposta do irmão mais velho e seguiu o seu caminho, despertando aos que dormiam pos onde passava.

PORQUE É DIFICIL MORRER EM SI MESMO?
Porque nós somos o primogênito, eu, você, todos nós. Eu em minha identidade, com todas as coisas que eu gosto e tudo que gostam em mim. O primogênito é o satã, ou seja, a personificação dos nossos defeitos. Ele tem o poder e a capacidade de orar e construir templos ao Pai, ele é devoto, é bonzinho, é coitadinho. Ele não pode ser ruim, como é que posso eliminá-lo? Como é que eu posso querer morrer se também sou um filho. Gostaria que o Pai me abençoasse em tudo o que eu faço. Eu também tenho esse direito. Como é que posso negar a mim mesmo??? Isso é iimmmmpppoooossssíííííííível. Como é que vou sair de onde estou e dar lugar ao mais novo? O queridinho do papai. Como é que eu posso rasgar a minha identidade? A minha melhor foto, o que eu tenho de melhor? É mais fácil eu tentar adormecer e fascinar aquela essência rebelde e fazer ela escolher por mim e não pelo meu irmãozinho.

É como se um Pai dá o carro ao filho mais velho para que ele realize as tarefas pertinentes, mas ele se encanta e passa a não obedecer os sinais, as velocidades, os caminhos. Até que se afasta tanto que não consegue mais voltar para casa, e até se esquece dela. Então o pai manda o seu outro Filho, para que assuma a direção e traga o carro e o irmão para casa. Mas é preciso ter humildade, confiança e reconhecimento pela autoridade do Pai para entregar a direção, ou seja, entregar aquilo que mais se gosta.

O que parece interessante é que desde o principio o Pai sabia dos riscos que corria o Filho mais velho, é como se o tivesse mandado em uma missão perigosa, muito arriscada. Porque escolhendo o caminho que escolheu, ele pôde tomar consciência do lado escuro. E o segredo é o de não se acomodar no mal, de mesmo estando nele, reconhecer a autoridade do Pai, ter humildade para entregar a direção, deixar os prazeres, as dores e as ilusões para trás. Reconhecer o Irmão e a sua missão, que é tão difícil e dura quanto a do mais velho. O que permite a consumação de todos esses acontecimentos e o retorno a casa do Pai com consciência plena é o AMOR, que é a lei única, que rege todas as outras, que é o próprio Pai em ação.

Por: Marcus Franck

Imagen internet

A roupa da moda Matrix


Uma simples ida ao banco pode suscitar idéias que vão desde a deliciosa paródia entre os agentes smiths do filme Matrix e os habitantes dos centros urbanos, à constatação de que a roupa contemporânea está chegando próxima da funcionalidade das malhas apertadinhas dos filmes de ficção científica.

Chegando a um banco, me deparo com uma imagem emblemática da interação homem-máquina: a fotografia publicitária de uma mulher deitada na relva em plena natureza, de olhos fechados em êxtase ouvindo algo nos seus fones auriculares. Como a espera nos bancos costuma testar a paciência, resolvi prestar atenção aos mínimos detalhes. A razão disso pode ser chamada de atividade de “passa-tempo”, antídoto contra ambientes fastidiosos. Assim, quando me deparo com os motivos gráficos das propagandas do local, gosto de me deliciar lentamente com cada um deles. Geralmente dá certo, porque o poder da contemplação exige tempo para "aquecer", o tempo necessário para as coisas se resolverem, porque o mundo descarta rapidamente aqueles que não tenham se deixado submergir no estresse.

22 Novembro, 2007

Almoçando em silêncio acompanhado

Um encontro banal que fica marcado, um homem simples que deixa rastros indeléveis na memória por seu pouco falar, uma única frase que calou mais do que montanhas de palavras ouvidas de outras bocas, demonstrando que às vezes a eloquência do silêncio é a voz da alma.

Segunda-feira, abril de 2004. Geralmente neste dia da semana eu almoço no trabalho, começo as atividades da tarde muito cedo e o tempo é curto. Não existem muitas opções por perto, por isso as mesas são muito disputadas, e como aqui no sul não existe o hábito de conversarmos com quem conhecemos pouco, geralmente uma pessoa senta em uma mesa onde cabem quatro, consequentemente os outros três locais ficam teoricamente bloqueados.

Cheguei ao local um pouco antes do meio dia e não tive dificuldade em encontrar a “minha mesa”. Estava no início do almoço e vejo que vem um senhor a procura de um local para sentar. Ele tinha mais de 70 anos, alto, grisalho, já um tanto curvado. Quando percebi que todas as mesas estavam ocupadas, a maioria com uma pessoa, o convidei a sentar, e talvez por não haver outra opção, prontamente aceitou. Agradeceu, e pelo seu sotaque pude perceber que deveria ser de alguma cidade do interior, possivelmente de origem italiana. Tinha as mãos grandes onde o tempo se fazia presente pelos calos e juntas grossas. Começou a cortar a carne, e segurava os talheres de maneira muito simples.

Começou a comer e não falava nada. Para provocar alguma conversa, comentei sobre a seca que atinge toda região sul. A conversa se desenrolou ainda com poucas palavras, e pude confirmar que ele era de uma cidade de colonização italiana que fica a uns 100km de Porto Alegre. Era um agricultor simples do interior. Dando seguimento aos meus comentários, disse a ele: o homem tem controle sobre tantas coisas, mas não consegue nada em relação ao clima. Ele me olhou e falou: “imagina se controlasse” baixou a cabeça e continuou comendo. Não falamos mais nada. Pensei muito no que ele disse. Terminou o almoço, nos despedimos e fui trabalhar.

Posteriormente refletindo melhor, percebi que ele resumiu ali boa parte da natureza humana. O problema em si não é a tecnologia, mas a importância e o uso que se dá a ela. Imaginei empresas multinacionais detentoras da tecnologia que “dominasse” o clima. Umas com patente sobre o calor, outras sobre a chuva, outras sobre o frio, a neve, etc. Mais uma vez se faria presente o interesse econômico, que normalmente é de poucos e não haveria compartilhamento do benefício. Sou professor em uma universidade e a tecnologia tem um lugar de destaque, e não poderia se diferente. Felizmente nesta universidade também se discute a ética.

Acho que temos que estar abertos psicologicamente para aprender e não deixar que os nossos títulos e diplomas criem muros ao nosso redor, pois a vida é uma grande escola, e a nossa consciência não desperta em um instante, mas aos poucos. Para isso é importante estarmos atentos, pois às vezes nos vêm algum ensinamento de onde menos esperamos. Todos, as crianças, os velhos, os amigos, os desconhecidos, podem nos ensinar, desde que estejamos prontos para aprender. Que Deus ilumine seus corações!

Por: Marcus Franck

21 Novembro, 2007

Gwendolyn Mok faz do Erard um ponto de partida

Na continuação da entrevista concedida a Thad Carhart pela pianista Gwendolyn Mok, ela debate a estranheza de Thad perante a escolha de um piano do século XIX para gravar os CDs de piano solo de Ravel, contrariando o senso comum imperante no meio musical, inteiramente satisfeito com a estética sonora forjada pelos melhoramentos introduzidos nos pianos modernos. Em nome da diversidade, Gwendolyn traz de volta á cena novos timbres, talvez não tão retumbantes como os de um Steinway, mas nítidos e delicados, quase os de uma harpa, revivendo ambiências há muito perdidas.

Thad: Há pianos e pianos, os peritos sempre souberam isto para, e alguns pianistas deviam sabê-lo - não todos. Mas é só agora que uma nova geração de artistas pode aproveitar isto de maneira inteligente. Tem a ver com a estética sonora contemporânea aos compositores. Não se quer dizer que o Steinway seja mau, não é uma questão de vencedores ou perdedores, é uma questão de diversidade, da variedade e riqueza da experiência que pode advir, que como toda a melhoria uma vez implantada, você se acostuma com seu uso. Não seria surpreendente para nós que Ravel tivesse experimentado outro piano, e o tenha feito conscientemente, mas o fez tendo a sua música em mente, sem tê-la mudado. Perfeito! Mas, para adquirir algo você ao menos tem que se abrir às experiências. É mais ou menos o que penso que você está fazendo com o Erard, embora eu faça os questionamentos com menor seriedade (é lógico para mim que isto é sério), por ser um assunto empolgante.

Gwendolyn: Gosto de tocar tais peças em qualquer piano moderno, seja ele Steinway, Bosendorfer ou Bechstein, tanto como toco num Erard, não é necessário um retorno ao Erard, é apenas um ponto de partida. Mas o que aprendi tocando num Erard, é que nossos ouvidos têm que estar abertos para outras possibilidades, e uma vez que você entra em contato com tais possibilidades, isso vai mudar para sempre a sua expectativa de som sobre os pianos modernos.
Digo aos meus estudantes, que se você pode ouvir o som que você quer realizar, há boas chances de obtê-lo. Mas se você não consegue ouvir tal som, então temos de trabalhar muito na realização do conceito. É a mesma questão quanto ao pedal. Eu acabava de chegar para a minha lição com Perlemuter e tive de ficar no Hall esperando o chefe para entrar. Daí um tempo ele veio rindo, movimentado a cabeça em sinal de bom humor. Ele acabara de ter teve uma interessante conversa com um fã americano. Era um pianista que tinha ligado, e todo lisonjeiro falou "Oh, Perlemuter, o seu pedal é divino! Qual é segredo do seu pedal?" E Vlado respondeu "não pedalo com os pés, pedalo com os ouvidos!" E deligou o telefone.

Thad: A técnica superficial é o refúgio de salafrários tanto quanto o patriotismo barato é para os políticos! Você consegue fazer com que ouçamos o que você ouve de maneira satisfatória?

Gwendolyn: Gravamos esse dois CDs num grande auditório com dois microfones Neumann, e dois microfones dirigidos para a captação do som de retorno ambiental. A diferença entre os resultados do piano usado nesta gravação e aquele que você obtém gravando com um piano moderno é bastante discernível. O CD foi gravado para a gente curiosa sobre Ravel e que nunca ouviu a sua música e está interessada neste cenário, ou para o aficionado que já conhece bem e ama Ravel e que gostaria de expandir a sua audição.

Thad: Estou ansioso para ouvir a sua interpretação porque você é uma pianista séria, e é assombroso para mim e muito encorajador que você esteja fazendo este magnífico trabalho. Não se deve dizer apenas "Oh que realização!" pelo trabalho em si mesmo, mas porque claramente você o está realizando com seriedade. Sei que você está fazendo muitas coisas além de descobrir que instrumento se presta mais com o quê e o uso que se faz dele e assim por diante, mas é uma parte importante do quadro, porque ironicamente isso é uma daquelas coisas que permanecem obscuras para nós. Como você diz, até que houvesse uma técnica digna do nome, a restauração muitas vezes era limitada a uma espécie de manutenção sofisticada. Agora há restauradores que trabalham para trazer esses pianos inteiramente de volta, devolvendo-nos a possibilidade de outras ambiências sonoras além daquelas que estamos acostumados.

Gwendolyn: Não estou tentando impor meu o ponto de vista ou forçar uma situação. Só estou oferecendo mais uma alternativa às diversas e excelentes gravações disponíveis da obra de Ravel. Um aspecto do estilo de escrita de Ravel ficou esclarecido para mim por Roger Nichols, que escreveu o libreto deste CD. Ele foi perguntado pela Editora Peters sobre a intenção da gravadora de lançar outra edição das mesmas peças solo de Ravel, aproveitando a pequena janela de abertura dos direitos autorais. Durand por muitos anos teve domínio completo sobre a música de Ravel. Se você estiver indo comprar alguma partitura, compre-a editada pela Peters, porque elas são belamente impressas e muitos erros foram corrigidos. Roger disse que em 1885 quando Vitor Hugo morreu, o seu funeral marcou a transição entre o velho e o moderno espírito na literatura francesa. Ravel naquele tempo tinha só dez anos. Na época ele não teve noção dessa ocasião importante, mas a sua música compreendeu a transição entre o velho mundo de ordem e cerimonial e o novo. Isso ficou refletido na sua obra, na forma de trabalhos como Le Tombeau de Couperin, que contém uma homenagem não tanto ao próprio Couperin, mas como tributo dirigido a toda música francesa daquele período, desenvolvido na linguagem única de Ravel.

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palavrs-chave: Erard, restauração, gravação, CD, timbre, couperin, pianista, pesquisa musical, piano moderno

Referências
Título: Gwendolyn Mok faz do Erard um ponto de partida
Capítulo: Thad Carhart entrevista Gwenlolyn Mok-4
Fonte: http://www.gwendolynmok.com/interviews.html
Tradução: Isaias Malta

Imagem: link

20 Novembro, 2007

Espiritualidade e (com)Ciência

O desenvolvimento científico sem espiritualidade pode resultar em fome, guerra e destruições, porque a sua aplicação se faz à revelia de qualquer limite ético. Partindo dessa premissa geral, no âmbito individual se estabelecem os mesmos dilemas: sem (com)ciência, resta uma vida sem sentido a ser desperdiçada.

O homem, talvez para entender melhor os fenômenos da natureza, do universo, de si mesmo, do por que da vida e de todas as coisas, fracionou, procurou se especializar, achando assim que seria mais fácil achar as respostas. Com isto vemos de um lado os homens da ciência, super especializados, intelectualizados, céticos. Procuram tanto por pequenas respostas que em poucos momentos de sua vida se fazem grandes questionamentos. Acreditam que tudo se resolve pela razão, e alguns se o orgulham de serem privados de sentimentos. Do outro lado vemos os homens das religiões, preocupados em mostrar que a sua é a verdadeira, a que ensina o caminho certo. Tornou-se notória a disputa pelo mercado de fiéis. Tornou-se para muitas um negócio, e parece que muito lucrativo.

A verdadeira espiritualidade não depende de religião, não que não possa se utilizar delas, muitas vezes são importantes nos momentos iniciais, para dar impulso, ânimo e uma direção. Aquele que tem anelos espirituais, de certo momento em diante, não pode mais ter condicionamentos. Existe um Guia interno em cada um de nós que nos mostra o caminho e que nos dá proteção. É preciso alimentar as inquietudes, os questionamentos, pois os buscadores caminham muito longe. Trilhar este caminho exige experimentação, porque ele é interno, é dentro de cada um que estão todas as respostas sobre a vida e o universo. Não é feito de teorias e ninguém pode trilhá-lo por nós.

Experimentação é experiência, nos permite ter ciência, ter conhecimento sobre algo que foi vivenciado, com seus acertos e erros. A ciência que alguém tem sobre algo ninguém pode tirar. Por isto que aquele que almeja a espiritualidade tem que ser um cientista, um experimentador. O Guia interno mostra o caminho, Ele está sempre mostrando, a todo mundo, é uma Luz que tenta se fazer presente e iluminar a escuridão, mas para perceber é preciso estar atento, é preciso querer ver, querer sentir e se conectar. Ele nos fala através da intuição, dos acontecimentos do nosso dia a dia, de uma pessoa que nos chega, de um livro que cai em nossa mão, de uma mensagem em um filme, das oportunidades de podermos ajudar. É importante fazer a escolha certa, o caminho é cheio de encruzilhadas, e destas escolhas vai nascendo a consciência (com ciência). Para que se faça a escolha certa é necessário negar em nós mesmos muitos conceitos, pré-conceitos, valores, referências...

As escolhas fazem parte da experimentação e vão definindo os valores em cada um. É importante se perguntar periodicamente, o que eu quero? Para que serve a vida? Quais são os meus objetivos? Quais são os meus valores? Não existe limite para as inquietudes e para quantos degraus queremos subir. Muitos querem ficar no mesmo degrau e não gostam de ver outros subir.

Por outro lado, os homens de ciência não conseguem ir muito longe privados de espiritualidade, pois realizam suas pequenas descobertas e não conseguem ter uma definição ética do uso que podem fazer delas. Nenhuma descoberta é ruim, por pior que possa parecer, energia atômica, pólvora, produtos químicos (Inclusive drogas), o problema é o uso que se faz delas, que destinos lhes são dados. Infelizmente vemos que os interesses não apontam para o bem comum da humanidade. Aí estão os valores, as escolhas, por isto os cientistas precisam da espiritualidade, para saber escolher, saber dar um bom destino as suas descobertas.

Desta forma podemos unir dentro de nós o cientista e o espiritualista, e também poderíamos acrescentar o filósofo e o artista, mas isto fica para um outro momento.

Palavras-chave: ciência, experimentação, sentido da vida, espiritualidade, ética, consciência, religião, buscador

Por: Marcus Franck

Ilustração: I ching meditations

18 Novembro, 2007

Viver é Sintonizar frequèncias

Depois que a teoria da relatividade de Einstein comprovou a equivalência entre matéria e energia, é possível levar à vida real as implicações desta lei física, ou seja, a matéria pode ressoar em diferentes freqüências, justificando o porquê de aparentemente algumas pessoas só atraírem desgraças, enquanto que outras parecem viver uma felicidade sem fim.

Quem somos?
No que posso compreender, somos ESTADOS DE ENERGIA. E o que determina a manifestação da energia é a freqüência em que ela está. As diferentes freqüências favorecem a atração e a repulsão e, apartir daí da-se a criação. Os diferentes estados da matéria, nada mais são do que diferentes combinações de freqüências. A própria diferença entre cada átomo pode ser vista da mesma maneira. ESTADOS VIBRACIONAIS, assim se sustenta o universo, criado pela freqüência do Verbo, e sustentado pelo Som, por música, em uma harmonia matemática perfeita. Pode-se dizer que o universo É uma equação matemática perfeita, onde a Chama habita em tudo o que Há, e Essa em uma freqüência única, que torna a todos iguais. Mas porque então somos aparentemente diferentes? Porque também vibram em nós freqüências diferentes que causam interferência e impedem nossa percepção.

È possível perceber e diferenciar o grotesco do sutil, no entanto não conseguimos:
- Perceber naturalmente ou mesmo transitar em outras dimensões.
- Saber se estamos acordados ou dormindo.
- Saber se estamos vivos ou mortos.
- As dimensões se diferenciam por freqüências diferentes.

Da mesma forma, se analisarmos os relacionamentos, eles se dão praticamente pela manifestação da freqüência das interferências e não pela da Chama, então nos vemos pelas diferenças e não pela semelhança. Isso favorece a intolerância e o desrespeito.

O mais interessante de tudo isto, é que podemos escolher em que freqüência queremos vibrar, podemos optar, em uma extremidade pelo ódio, e na outra pelo Amor, que vem a ser a própria Chama, que permite percebermos a semelhança ao invés das diferenças. Ao optarmos pelo Amor, optamos pelo Cristo, que nasce em nós pela nossa escolha. Ele cresce e se desenvolve em nós alimentado pelo próprio Amor. A cada instante optamos pela freqüência em que queremos estar, expressa em nossas vontades, pensamentos, sentimentos e atitudes. Entre as duas extremidades citadas existem outras tantas inumeráveis onde a cada instante, cada um se posiciona.

Termos consciência de que podemos escolher e, portanto mudar, é o princípio, que em si só já altera o estado de consciência, o que resulta na primeira mudança, o primeiro passo. Para continuarmos, é preciso exercitar o QUERER, a VONTADE, e o próprio Cristo nascido nos impulsiona a isso, como qualquer criança que precisa de alimento. Ele passa a ser o sujeito, assume a pequena consciência que existe e as inquietudes aumentam, modificam nossas percepções, nossos interesses, passamos a compreender ao invés de entender.

Os instrumentos para seguir em frente são a paciência, humildade, obediência, disciplina, determinação, coragem, desapego, confiança, fidelidade, abnegação entre outros.
A freqüência vibratória que nos coloca em estado de matéria, nada mais é do que uma oportunidade para fazermos as escolhas certas, e a possibilidade de escolher dá ao homem um poder, que o diferencia dos outros seres vivos, que na freqüência que estão só tem uma opção, seguir aos instintos. Todo poder exige responsabilidade, e isso nos é cobrado. Somos hoje o resultado de nossas escolhas passadas, dessa existência e das anteriores. Nós somos os responsáveis pelo que somos. Em nenhum momento podemos transferir essa responsabilidade a quem quer que seja.

Finalmente, para refletir: já que temos a possibilidade de mudar, queremos continuar sendo o que somos?

Por Marcus Franck

Imagem: Julieta Ferreira

17 Novembro, 2007

Gwendolyn Mok invejando o quarteto de cordas

Qual seria o motivo da inveja de uma pianista ouvindo um quarteto de cordas? Gwendolyn critica as melhorias do piano moderno tais como o mecanismo de duplo escape e as cordas cruzadas, como sendo privilegiadores do virtuosismo e da potência sonora em detrimento da pureza tonal, já que cada corda não pode ser ouvida em toda a sua extensão.

Thad: De um ponto de vista diferente, suponho que você obtém mais harmônicos ressonantes do que atenuações tonais. Isto também é produzido pela tábua harmônica sobre a qual estão montadas as cordas cruzadas, numa complexidade tai normal para nós, ao ponto de termos desenvolvido uma estética assentada nisso, ainda mais porque todos os pianos têm corda cruzadas atualmente. Penso que foi a Steinway que criou o divisor de águas, colocando a caixa do Chickering junto com a estrutura de cordas cruzadas, assim o piano realmente ganhou força.

Gwendolyn: “Voluminizaram-no!”

Formatações

O conceito de formatação empregado na área da informática é tomado como metáfora para a vida: cada ser nasce programado para andar nos "trilhos" da existência, os que não contestam o seu papel, nascem crescem e morrem como joguetes nas mãos do destino e uns poucos lutam contra as amarras que os prendem à vida comum.

À semelhança dos computadores, somos seres formatados, os detalhes podem diferenciar para cada época em que se vive, mas a essência do seu funcionamento é a mesma.
Os programadores são invisíveis, mas fundamentalmente são dois. Os que querem que despertemos e que conquistemos nossa individualidade consciente, livre das amarras e grilhões que nos aprisionam. E os que querem que sigamos adormecidos e escravos de tudo o que há.

Os que nos querem adormecidos podem nos oferecer PRAZER, e nada mais. Dessa forma, com profundo conhecimento dos nossos instintos e sentidos, PROGRAMAM em nós as mais variadas formas de sentirmos prazer, instigando os desejos e propagando a idéia que dessa forma podemos chegar à SATISFAÇÃO. Não nos dão a idéia de que o prazer é limitado dentro do seu tempo e, terminado esse tempo, encerra o prazer e a satisfação também vai se terminando. Dessa forma o prazer tem que se repetir, e passam a funcionar em nós como vícios, por isso é que somos viciados em comidas, bebidas, esportes, jogos, paixões, trabalho, reuniões familiares, viagens, moda, televisões, computadores, compras, aventuras, conquistas, poder, necessidade de produzir e de competir, de trabalhar todo tempo para poder consumir (ou se consumir) etc.

Se não conseguimos manter o vício nos tornamos INSATISFEITOS, causa da quantidade absurda de depressão e doenças mentais de toda ordem que se vê nos dias de hoje. Então programam em nós novos prazeres, e assim vamos desenvolvendo novos vícios, permanecendo assim em eterno sono, adormecidos e escravos. Um dos principais objetivos dos programadores, é o de nos tirar o tempo livre, para que não possamos refletir, contemplar, agradecer e, principalmente QUESTIONAR. Também é preciso saber que como o prazer por si só não se equilibra, pois ele está em um dos pratos da balança, quem dá o equilíbrio a esta equação é a DOR.

É importante refletir, não existe prazer sem dor. Podemos estar eufóricos em um momento com alguma conquista e arrasados em outro com sua perda. O interessante é que passamos a achar que esta programação é normal. O maior erro da humanidade é encarar o prazer como um fim, e aí se acomodou, não no prazer, mas por ironia, na dor. Eternamente insatisfeita, destrói o que está ao seu redor, meio ambiente e uns aos outros para manter os vícios.

Os que querem nos ajudar a despertar nos oferecem FELICIDADE, que não está vinculada ao tempo, mas tem que ser conquistada. Dão-nos as chaves, mostram o caminho, não prometem presentes, mas nos dão força, proteção, ajuda de toda natureza.
Os que nos querem adormecidos, primeiro nos dão o prêmio (prazer) e inevitavelmente depois nos cobram com a dor. Os que nos querem despertos, primeiro nos exigem a dor (o esforço e o sacrifício de nos livrarmos dos vícios) e depois nos dão o prêmio, a felicidade.

Os programadores se utilizam de todos os recursos possíveis para atingirem seus objetivos. Os principais são os meios de comunicação, as artes, a ciência, qualidade dos alimentos etc, podemos ver aí do lixo ao sublime. Funcionamos como computadores modernos, com um “plug and play” instantâneo, a informação chega em nós e ficamos programados, dessa forma podemos criar centenas, milhares de pequenos vícios a cada dia.
O que é fundamental nessa questão, é sabermos que temos ESCOLHA, e que nenhum programador pode interferir nela, podem somente influenciar, mas o LIVRE ARBÍTRIO é particular e de domínio exclusivo de cada um.

palavras-chave: existência, destino, felicidade, livre arbítrio, programação, prazer

Por: Marcus Franck

Fonte da imagem: Carlos Portela

15 Novembro, 2007

Gwenlolyn Mok indo além do piano percussivo

A produção pianística de Ravel envolve personagens e enredos da comédia de l'arte. O conteúdo programático subjacente à textura musical foi estudado exaustivamente pela pianista Gwendoly Mok, que para recriar os efeitos reclamados por Vlad, o último discípulo remanescente de Ravel, teve que se socorrer de um velho piano Erard de 1875 de cordas retas, na busca da obtenção da vibração mais nítida possível que ressaltasse a estrutura quase mozartiana.
Gwendoly Mok

Thad: O mesmo que você tocou na Casa de Ravel?

Gwendolyn: Sim, uma das qualidades mais admiráveis daquele piano que eu poderia mencionar é principalmente a sua limpidez sonora. O Erard de 1875 que eu toquei tinhas as cordas retas. Se você olhar dentro do seu próprio piano, notará que as cordas são cruzadas em dois grupos, um em relação ao outro. Com o piano de cordas retas você pode obter várias combinações de registrações diferentes – ouvidas como se fosse um coro de vozes, diferenciadas as vozes de baixo, tenor, alto e soprano. É tudo muito nítido e não há mistura ou homogeinização do som. De certa forma, isto te dá incríveis oportunidades de experimentação de várias possibilidades de colorido.

14 Novembro, 2007

Gwenlolyn Mok à procura do Erard perfeito

Thad Carhart, autor do livro “A Loja de Pianos da Rive Gauche”, recentemente entrevistou Gwenlolyn Mok sobre o piano Erard que ela usou nas suas performances das obras de Ravel e sobre as suas impressões sobre a interpretação de Ravel.

A pianista Gwenlolyn tem inovado nas suas gravações por escolher um timbre alternativo à padronização sonora existente no mercado fonográfico, imposta pela super poderosa Steinway americana, graças à sua agressiva política de cedência gratuita dos seus pianos aos maiores pianistas do mundo. A pianista, ao se desvencilhar do caminho mais fácil, resgata o som original inspirador de Maurice Ravel em suas composições e esclarece algumas das suas intenções presentes nos manuscritos sob a forma de marcações e anotações.

Thad: A meu ver, quando você gravou a obra completa de Ravel, optou por um instrumento da época dele, não qualquer instrumento, mas um Erard. Então qual foi a qualidade particular de som que a convenceu, desde a primeira audição? Provavelmente essa idéia veio da experiência, não em decorrência de uma decisão intelectual, mas por algo que você ouviu, que a fez tomar a decisão. Estou correto?

Gwendolyn: Eu estava em meio aos meus estudos com Vlado Perlemuter, o grande intérprete de Ravel e provavelmente o seu último e conhecido pupilo. Estava muito curiosa sobre uma série de marcas no manuscrito. Vlado e eu nos debruçamos por dias em cerca de 20 compassos numa passagem do Alborada Del gracioso. Ele insistia em falar no “diminuindo”, dizia ele: “você deve ouvir o diminuindo e então fundí-lo com a próxima nota”. Estava difícil porque ele continuava insistindo nisso e demonstrando e eu não podia entendê-lo ou ouvir tais subtilidades no piano.

Thad: Que tipo de piano ele estava tocando àquela altura?

Gwendolyn: Ele tocava um Steinway e ele também possuía um Pleyel. Eu estava em Paris em 1994 e para me certificar foi à casa de Ravel em Montfort L’Amaury. Era a primeira vez que eu visitava a casa de Ravel, em fevereiro havia um frio absurdamente congelante, nevando e a casa não tinha calefação. Todavia lá estava o seu piano Erard, num pequeno e estreito recinto. O zelador sabia que Vlado havia me enviado e convidou-me para experimentar o piano. Eu estava absolutamente fria e enregelada e fazia muito frio naquela salinha, mas terminei criando coragem de tocá-lo. O piano havia sido recentemente restaurado pela Pianos Hanlet. Foi realmente inacreditável, porque tão logo comecei a tocar, o piano esclareceu muitas daquelas questões que Vlado estava tentando me fazer entender, especialmente no Alborada e em algumas outras peças onde ele queria certos coloridos e nuances sutis, que eu não estava preparada para executar. Penso que talvez esta tenha sido uma semente plantada na minha mente, que me direcionou posteriormente. Nada ficou definido até 1995, quando em setembro, estando em Amsterdã, numa folga de fim de semana, Adam Swainson um amigo meu da Inglaterra me forneceu alguns nomes de amigos em Amsterdã e disse que se eu estivesse interessada em Erards, deveria contatar Fritz Janmaat.
Sucedeu que eu estava em Keizersgraacht, onde a minha tia e tio têm uma propriedade. Enquanto caminhávamos, topamos literalmente com a loja dele. Mesmo que já houvesse planos, eu não tinha intenção imediata de procurar Fritz, ainda mais porque passeávamos despreocupados e desprevenidos. Fritz estava lá e, juntamente com o seu assistente francês, polia um belíssimo instrumento todo construído em pau-rosa. Eu falei: “Estou interessada em saber se você tem qualquer Erard que eu possa experimentar” e ele respondeu: “Estou justamente terminando este piano, você gostaria de tocá-lo?” Assim se deu a incrível coincidência.

Thad: Ele sabia que você era uma pianista profissional, ou pensou que era apenas alguma curiosa eventual?

Gwendolyn: Bem não, tanto quanto eu saiba ele pensou que eu era apenas alguém caminhando na rua. De qualquer maneira eu não falei muita coisa, por precaução, eu não queria ir muito fundo naquele negócio, porque se tocasse nele no Erard e não gostasse, então era melhor ser deselegante anonimamente. Simplesmente sentei e toquei Ondine e Alborada, porque elas estavam bem frescas na minha memória. O Fritz ficou muito entusiasmado e começou a esclarecer todas tradicionais questões. Seu piano era de 1868-1875, o que era bom para mim porque Ravel havia nascido em 1875 e o Erard de Ravel é de 1902-03.

PRÓXIMA PARTE...

Palavras-chave: pianista, timbre, ondine, alborada, Ravel, Erard

Referências
Fonte: http://www.gwendolynmok.com/interviews.html
Tradução: Isaias Malta

Imagem: Submarino

13 Novembro, 2007

Landowska e o problema da interpretação em Bach

Aquela que simultaneamente resgatou a dignidade da interpretação tecladística de Bach e reabilitou o cravo no século XX, foi sem dúvida a polonesa Wanda Landowska, que soube como ninguém revigorar as concepções que se tinha até então de Bach, considerado austero, metronômico, excelente para os alunos de piano, mas impensável como peças de concerto e prazer destinadas ao público leigo - Download MP3 abaixo.

Wanda Landowska

Considere por um momento as várias opiniões contraditórias de como interpretar o Bach:
"Os trabalhos do grande Kantor são como uma catedral majestosa. O intérprete tem que se dedicar principalmente ao contorno contrapontístico principal, sem a preocupação imediata com os detalhes,lembram um valioso colar, de cuja apreciação estética deve ser subraída a precisão científica”.

"Os trabalhos do Kantor são construídos em granito, de maneira hercúlea. Para permanecer fiel a um estilo tão grandioso, e não deixar-se cair na inflexibilidade e frieza, a pessoa não deve ser influenciada por qualquer outro sentimento, senão o desejo de ser completamente impessoal”.

“Mas por que não respirar a vida fresca ostentada por estas severas belezas? Se Bach estivesse vivendo hoje, talvez ele fosse mais emocional. Se ele estivesse munido com nossos instrumentos modernos, modificaria muitas coisas indubitavelmente. Considerando que ele está morto, nós deveríamos dar para à sua música o máximo de sonoridade e a intensidade emocional do nosso temperamento moderno. Deveria haver efeito mais dramático. Mais oitavas na linha do baixo e intensidade mais trágica de interpretação."

"Preservar as características da época", dizem os sóbrios virtuosos, "Nós não devemos empregar os pedais que não existiam naqueles dias." "Os velhos instrumentos tinham mais pedais do que os de hoje."

E assim por diante. Seria impossível citar todos os preconceitos incutidos nos conservatórios, nos corredores dos concertos e entre os críticos. Uma idéia amplamente difundida é aquela de que Bach foi o Czerny do século XVII. Um Czerny cordial que escreveu para piano, e exercícios para órgão, que eram muito difíceis e sumamente úteis para desenvolver a mão esquerda e o quarto dedo. Mas muitos músicos prestam pouca atenção às idéias contraditórias sobre Bach. Eles consideram a pergunta resolvida há muito tempo, porque seguem a melhor tradição dos grandes pianistas, especialmente Rubinstein. [2] Talvez possa ser interessante conhecer a atitude daquele virtuoso e mestre neste assunto.

A Atitude de Rubinstein em relação a Bach
"Todos os grandes compositores até Haydn". diz Rubinstein, nos "deixaram em escuridão completa sobre suas intenções quanto aos detalhes interpretativos dos seus trabalhos; e não há nenhum meio de saber qualquer coisa definitiva sobre isto. Hoje você não achará dois músicos que concordam até mesmo como os ornamentos devem ser tocados. Philip Emanuel Bach escreveu um livro sobre este assunto; mas ele teve em mente só os instrumentos do seu tempo. Infelizmente nós não podemos ter uma idéia precisa dos clavicórdios, clavicembalos e espinetas, porque não sabemos como tocá-los, o que seria um conhecimento indispensável à compreensão."

Mas Rubinstein não ousa tanto quanto Saint-Saëns, que nos aconselha que nos contentemos em ler as partituras e abandonemos a expressão de trabalhos dos quais podemos ter somente uma falsa ou ineficiente idéia de interpretação. Pelo contrário, com as melhores intenções, ele busca um remédio para o mal e especialmente tenta obter as sonoridades delicadas do passado em nosso piano contemporâneo. "Eu não posso ajudar acreditando", disse ele, que aquele piano de "Bach tivesse arranjos especiais para produzir efeitos diferentes de sonoridade. Sempre sou tentado a variar as "registrações" dos efeitos dinâmicos em diferentes estilos de execução, combinado ao uso inteligente dos pedais."

Saint-Saëns escreveu dois livros sobre o Cravo bem temperado com figuras de expressão e comentários feitas por Rubinstein para a série dos seus concertos históricos. Lado a lado com algumas picantes avaliações, às vezes surreais, como no comentário sobre a fuga em si bemol menor (Livro 2) para a qual Rubinstein imaginou "a canção de um moujik (camponês), no seu carro no meio das estepes" nós achamos algumas instruções muito vagas quanto a execução. É evidente que o método dele de "registração" não era exato: era dependente das suas escolhas intuitivas. Em todo o seu texto pode-se depreender a importância que ele deu ao conhecimento sobre os instrumentos antigos.
"Não", ele disse que "O piano moderno não é um instrumento que se adeque aos velhos clássicos. Como os trabalhos daquela época foram concebidos para os instrumentos daquele tempos, somente por intermédio deles poderiam ser reproduzidos fielmente, posso concluir que há perdas quando se toca nos pianos de hoje. Caso Philip Emanuel Bach tivesse escrito um método sobre a expressividade do cravo, teria se cingido então às possibilidades expressivas possíveis nos instrumentos de então."[3]

Rubinstein buscou em vão, mas não encontrou qualquer informação mais detalhada sobre os instrumentos antigos. Mesmo que possuamos peças em bom estado de conservação, "mas", diz Rubinstein, os instrumentos remanescentes que se encontram nos museus de Londres ou Bruxelas não nos podem dar uma idéia exata das suas qualidades, porque o tempo altera a sonoridade de um piano de tal forma, que o torna irreconhecível”. Isso é verdade, mas os antigos fabricantes nos deixaram especificações precisas para a construção dos seus instrumentos e até mesmo, instruções detalhadas para afiná-los. Geralmente Rubinstein radicaliza ao afirmar que não temos nenhum meio de saber qualquer coisa objetiva sobre a música antiga. A época deles não é tão remota para nós; os séculos XVII e XVIII se distinguiram não só por seu número de compositores geniais, mas também pelos seus notáveis teóricos, e de qualquer maneira, não deveríamos reclamar do número de documentos disponíveis, já quem nem uma vida inteira seria suficiente para conhecer a metade deles. Felizmente esta tarefa foi facilitada para nós por peritos como Spitta, Dannreuther, Pirro, Seiffert, Fuller-Maitland, Shedlock e muitos outros. [4] Se às vezes ficamos em dúvida sobre a execução deste ou daquele ornamento, na música mais recente é provável que a dúvida persista em um ou outro detalhe. Porém em Bach, ele nos deixou indicações claras e precisas de como os ornamentos deveriam ser tocados. Nos exemplos dados na primeira página do Clavierbüchlein (Pequeno caderno para Piano), escrito para o seu filho Wilhelm Friedemann Bach e Clavierbüchlein para Anna Magdalena Bach, o sistema é do baixo cifrado, como também um trabalho teórico sobre este assunto, onde o tratou com maior amplitude e detalhamento sob o título: "Regras e Princípios para tocar Baixo Cifrado a quatro vozes, ou um Acompanhamento para Alunos por Johann Sebastian Bach, Compositor do Tribunal Real e Capellmeister, também Diretor de Música e Kantor da Escola de St. Thomas em Leipzig”.

A atmosfera do período de Bach
Não pretendo afirmar que o conhecimento dos instrumentos antigos e da escrita exata dos ornamentos do baixo cifrado baste para executar a música barroca, longe disto. Há obstáculos mais sérios que Rubinstein não levou em conta. Para começar, é geral a nossa ignorância sobre os modos, costumes e desejos, enfim sobre a atitude mental prevalecente na atmosfera da época. Muito raramente ouvimos a música genuína do Kantor de Leipzig. Somos compelidos a escutar um Bach modernizado, adaptado ao modo musical de hoje, aproximado às condições de nosso tempo. Estamos dois séculos distantes de Bach, não obstante, a época dele é história vaga e totalmente diferente do tempo em que vivemos, diferente na vida, arte, impressões e idéias. O que buscamos avidamente, o que gostamos e o que admiramos, freqüentemente não tem similitude naqueles tempos.

Intensidade de expressão e amplitude de sonoridade são qualidades mais buscadas agora, as mais valorizadas em todo desempenho musical. Não entanto, os ideais da arte contemporânea não estavam tão em alta há dois séculos atrás. Nos prefácios dos seus trabalhos ou em seus tratados de execução ao cravo, recomendam os autores acima de tudo, graça, sutileza e precisão. "A experiência me ensinou", diz François Couperin, “que mãos mais fortes e capazes de tocar passagens mais rápidas, não são as mesmas que têm melhor sucesso em expressar sentimentos mais ternos”.

O Ideal de Bach comparado ao atual
Na sua procura pela perfeição, Bach não imaginou um instrumento com grande sonoridade, mas com um tom tão maleável e flexível quanto possível. No seu prefácio de 1723, para as "Invenções", Bach disse que eles foram escritos para ensinar a tocar corretamente e ajudar o aluno a adquirir o “cantabile”; ele desprezava os compositores que só pensavam em ginástica de dedos e os chamou de "Clavier-Husaren" (em nossa gíria, "Cavaleiros da Távola do Teclado.") Ele insistiu que os três princípios que guiaram os retóricos romanos são necessários para uma interpretação acurada: clareza e graça. Quando Bach é tocado hoje, intensidade, baixos tonitroantes, dinâmicas contrastantes e exageradas são as qualidades mais notáveis. Graça, inteligência, fé e sublimidade, apesar de terem perdido importância na nossa vida rude e mercantilizada, são necessárias para a interpretação dos trabalhos do gênio.

A música se democratizou e cresceu em popularidade. Nas palavras de Wagner, “a música deixou de ser o prazer ministrado por criados a algumas pessoas seletas e refinadas”. Tornou-se o prazer de todo mundo e "todo mundo" prefere efeitos ruidosos, sensações que aturdem, e acima de tudo sonoridade, tremenda sonoridade. Deve haver explosões virtuais, torrentes de som e exibições elétricas para que o ouvinte cansado não durma!

Uma comparação entre os instrumentos dos séculos XVII e XVIII
A exagerada ênfase dada para intensidade e o barulho foi um fator preponderante nas melhorias introduzidas nos instrumentos modernos. Por exemplo, tenha em conta o órgão moderno e as imensas construções que funcionam por água ou eletricidade. No livro de Albert Schweitzer sobre Bach, organista notável e uma autoridade competente em tudo relacionado ao órgão dedica um capítulo inteiro a esta mesma pergunta. [5] os trabalhos de Bach não são beneficiados pela sonoridade do órgão moderno; as registrações fundamentais têm papel mais importante do que o todo sonoro, elas são muito numerosos e ao mesmo tempo têm um volume muito grande de som. Ao tempo de Bach a equalização não só nivelava as registrações básicas, como também elas eram muito mais eufônicas que o nosso múltiplo espectro timbrístico moderno e tinham um tom que era intenso e sutil e que reproduzia maravilhosamente a sutileza da escritura de uma fuga. Estas fugas, de acordo com Mr. Schweitzer, tocadas no órgão de hoje, se tornam pesadas e massivas como gravuras desenhadas a carvão. Em relação aos nossos pianos orquestrais, estas máquinas são capazes de ensurdecer uma audiência inteira, compare suas pernas volumosas com as linhas sutis e frágeis dos clavicórdios e você descobrirá a diferença resumida de gosto entre as duas épocas.

Por Isaías Malta

Notas e referências:
[1] este estudo foi publicado originalmente na Revista de Música de Estudo (1906 de setembro): 562-3. A seguinte introdução foi produzida pelos editores do Estudo: "Alguns meses atrás O Estudo estampou um artigo sobre os recitais de clavicórido de Mme. Landowska que despertam bastante entusiasmo em certos centros musicais da Europa. Ela fez estudos minuciosos dos períodos da música do clavicórdio e espineta, como também sobre os próprios instrumentos, o que fez dela uma autoridade nestes assuntos. Embora os intérpretes de hoje tenham que tocar as composições de Bach em instrumentos diferente daqueles para o qual foram originalmente escritos, eles compreenderão muito mais facilmente o espírito da música barroca se eles tiverem uma idéia das suas características especiais. O artigo presente e outra seção dele que aparecerá em O Estudo durante outubro ajudarão na formação uma estimativa do teclado de Bach trabalha e o estilo no qual eles deveriam ser tocados." [Os editores].

[2]. Qual texto Landowska não especifica nem cita. As escritas de Anton Rubinstein (1829-1894) incluem: "Die Componisten Russland’s, für de Blätter Musik Teatro und Kunst, 29 (11 1855 de maio); 33 (25 1855 de maio); 37 (8 1855 de junho); Istoriya literaturd fortepy'yannoy muzdki ", Muzdkal'noye obozreniye (St Petersburg, 1888–9; Trans alemão., 1899, como Dado des de Meister Klaviers); Vospominaniya de Avtobiograficheskiye (1829–1889) (St Petersburg, 1889; Eng. trans., 1890, como Autobiografia de Anton Rubinstein (1829–1889)); Muzdka i yeyo predstaviteli (Moscou, 1891; Eng. trans., 1891, como UMA Conversação em Música: Música e seus Mestres). Veja Dicionário de Arvoredo Novo de Música e Músicos On-line, ed. L. Macy

[3]. Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788) publicou Die Kunst das clavier zu spielen [Ensaio sobre a verdadeira arte de tocar Instrumentos de teclado] em 1750 em Marpurg. Tradução inglesa editada por W.J. Mitchell (Nova Iorque, 1949).

[4]. Philipp Spitta (1841-1894) era um historiador de música; ele escreveu sobre Bach, Palestrina, entre outros assuntos, e editou trabalhos completos de Schutz. Edward Dannreuther (1844-1905) era pianista inglês e crítico de música, autor de Ornamentação Musical (Londres, 1893). Andre Pirro (1869-1943) era organista francês e estudante, o autor de uma história da música dos séculos XIV-XVI. Max Seiffert (1868-1948) era um musicólogo alemão especializado em música Barroca; ele publicou edições de Scheidt, Sweelinck, Buxtehude e outros. J.L. Fuller-Maitland (1856-1936) era um musicólogo inglês, enquanto escrevendo em alemão a música inglesa dos séculos XV e XIX. Ele editou música por Byrd, Purcell, Fitzwilliam Livro Virginal e outras fontes. J.S. Shedlock (1843-1919) era escritor de música inglês, o autor de uma história da sonata e estudos de Beethoven.

[5]. Albert Schweitzer (1875-1965) era organista alsaciano, musicólogo e doutor. Ativo no Paris Bach Sociedade, ele publicou em música entre 1905 e 1913. Seu estudo de J. S. Bach, apareceu em 1905 e foi traduzido para numerosos idiomas. J.S. Bach, le musicien-pocte (Leipzig, 1905; Ger. trans., aumentado 1908; Eng. trans., 1911). Em 1913 fundou um hospital para leprosos em Gabão, África onde ele residiu até a morte.

Imagem por Britannica

Wanda Landowska interpreta a cravo o Prelúdio e Fuga e Allegro em mi menor, de Johann Sebastian Bach
DOWNLOAD AQUI >>>>>>>>>>>>>>>>>>> MP3

12 Novembro, 2007

Cérebro, Genes, Linguagem e Inteligência


O desenvolvimento cerebral está intimamente relacionado ao surgimento da linguagem humana. A era glacial foi o período em que nosso córtex cerebral mais se desenvolveu, atingindo as proporções atuais. Em grande medida esse período de desenvolvimento se relacionou com a necessidade de estabelecimento da sociedade humana, sem a qual não podemos mais sobreviver.


A camada de dois milímetros de espessura do córtex é a região cerebral mais relacionada aos processos inteligentes. Quando esticada, essa camada do cérebro humano é capaz de cobrir quatro folhas de papel tamanho ofício, enquanto o córtex do chimpanzé ocupa apenas uma destas folhas, o de um macaco prego ocupa o espaço de um cartão postal e o de um rato ocupa o espaço de um selo.

A grande expansão do cérebro humano em relação aos outros primatas não começou antes da idade do gelo há 2,5 milhões de anos, quando florestas inteiras desapareceram em virtude da drástica queda na temperatura e nos regimes de chuvas. A adaptação dos hominídeos a estas condições deve ter sido bastante dinâmica durante este período de abruptas alterações climáticas. Entre outras coisas ela permitiu um acúmulo de habilidades mentais capazes de conferir uma flexibilidade comportamental, a qual é igualável por outros vertebrados.

Segundo Calvin (1994), uma aquisição atribuída a este período foi a capacidade para a linguagem humana, a qual permitiu uma melhor atividade coletiva para caça.[1] A linguagem humana não se relaciona somente com o ato de falar, pois afeta a inteligência de forma integral.

Oliver Sacks [2] relata o caso do menino surdo Joseph, que até os onze anos de idade não aprendera qualquer linguagem. Quando começou a aprender sinais, todavia, não tinha nenhuma noção clara do tempo passado, apresentava uma estranha ausência do senso histórico como se só existisse no momento presente. Parecia, literalmente, incapaz de manipular imagens, hipóteses ou possibilidades. O autor salienta que é evidente que o pensamento e a linguagem possuem origens (biológicas) separadas, que o mundo é examinado e definido muito antes do advento da linguagem, existindo um vasto âmbito de pensamento em crianças antes do seu surgimento (e ninguém estudou isto tão bem quanto Piaget), mas embora um ser humano não se torne deficiente mental sem ela, se torna bastante restrito no âmbito dos seus pensamentos, confinando-se a um mundo pequeno e limitado.

Estas informações sugerem que nossa inteligência foi aprimorada numa situação de estresse ambiental, que exigia ações mais efetivas para garantir a sobrevivência dos indivíduos. Nosso cérebro aumentou e criou suporte físico para o desenvolvimento da linguagem. As redes neurais que nos capacitam a falar se desenvolvem após o nascimento durante um período crítico que começa em torno de um ano e meio de idade e necessita da interação comunicativa com outras pessoas. Estes períodos críticos observáveis no desenvolvimento de algumas redes neurais, indicam que o desenvolvimento do organismo após o nascimento também segue alguns caminhos obrigatórios assim como ocorre no desenvolvimento embrionário.


Piaget se interessou pelo padrão do desenvolvimento embriológico, estudando os trabalhos de embriologistas da sua época. Chamou-lhe a atenção os “créodos” ou caminhos obrigatórios que o embrião percorre ao longo do seu desenvolvimento, pois suas pesquisas com crianças revelavam que o desenvolvimento da inteligência seguia seus próprios caminhos obrigatórios até atingir maior flexibilidade a partir dos seus níveis mais avançados, que ele chamou de pensamento lógico matemático.

Pesquisas mais recentes sobre a biologia do desenvolvimento revelaram que nossas características mais conservadas são determinadas pelos “genes homeóticos”, os quais se mantêm muito invariáveis ao longo da evolução, mesmo quando comparamos organismos com um distante parentesco evolutivo como moscas e ratos. Paradoxalmente, os genes que determinam os nossos caminhos obrigatórios durante o desenvolvimento, especialmente, no período embrionário, são justamente os mesmos que nos conferem uma grande identidade genética com os outros seres vivos e tornam possível a troca de DNA entre espécies muito diferentes.

Este paradoxo entre caminhos obrigatórios e possibilidade de recebimento de DNA exógeno indica que, mesmo em nível celular ou até molecular, a vida depende de um equilíbrio constante entre ordem e caos, organização e plasticidade. Sobreviver significa conciliar a preservação do sistema com a possibilidade de produção de mudanças e a construção de novidades. Isso nos permite interpretar a vida com a metáfora de Nietzsche, na fala de Zaratustra, sobre o caminhar em uma corda estendida!

A preservação do sistema para o desenvolvimento biológico é bem mais crítica nos estágios iniciais, onde não podem ser eliminadas etapas, pois cada estágio cria as bases sobre as quais se estruturam os próximos. O mesmo padrão de desenvolvimento é sugerido por Piaget para a inteligência e para o nascimento da linguagem na criança.

O conhecimento atual sobre a genética e a biologia do desenvolvimento mudou a concepção de meio, pois o material hereditário não é mais visto como uma entidade isolada do meio, apresentando janelas de interação, inclusive podendo receber informação genética exógena. O modo mais contemporâneo de interpretação do desenvolvimento biológico, bem como das relações entre os organismos e o meio apóiam as idéias de Piaget sobre a necessidade de uma ultrapassagem dialética das proposições de Darwin e Lamarck sobre evolução e origem das espécies, muito mais do que se poderia imaginar nas décadas de 60 e 70.

O conceito de interação, central em todo pensamento piagetiano, nos fornece um paradigma adequado para percebermos o meio como um contexto com múltiplas determinações, que ultrapassam a idéia de mero espaço físico.

Além disso, os ensaios de Piaget sobre as correspondências de funções e os isomorfismos parciais de estruturas entre o organismo e o sujeito do conhecimento, apontam para a necessidade de utilização tanto da informação biológica, bem como da filosófica ou da sociológica, não apenas para descrever, mas, também, para pensar o ser humano, a fim de compreender seus processos cognitivos. Por este motivo, oferecem uma importante base epistemológica para um olhar interdisciplinar na proposição de práticas educativas adequadas ao desenvolvimento da inteligência humana.
Por Gladis Franck da Cunha

Referências:
[1] CALVIN, William H. The ergence of Intelligence. Scientific American New York, v. 271, n. 4 p. 79-85, Oct., 1994.

[2] SACKS, Oliver. Vendo vozes: uma jornada pelo mundo dos surdos. Rio de Janeiro : Imago, 1990.

Ilustrações: Ciência Hoje Portugal   e link 2

11 Novembro, 2007

Como afinar um piano Erard

Alguns pormenores sobre a afinação de um piano Erard descritos no livro "O Afinador de Pianos" de Daniel Mason. Algumas particularidades presentes nos pianos Erard são incomuns nos outros pianos, como o emprego de couro e feltro combinados na cobertura dos martelos percussivos.


Não se sentou, sempre dizia aos seus aprendizes que os pianos são melhor afinados de pé. Tocou a tecla dó da oitava média. Demasiado grave. Tentou na oitava inferior e logo tocou o dó das outras oitavas. O mesmo problema: todas estavam quase um semitom abaixo. Contudo, as agudas estavam pior. Tocou o primeiro movimento das suítes inglesas de Bach, porém sem acionar a tecla que tinhas as cordas rompidas. Nunca se havia considerado um bom pianista, mesmo que lhe encantasse o frescor do marfim e o vai e vem das melodias. Deu-se conta de que há vários meses não tocava e ao cabo de uns compassos se deteve; o piano estava tão desafinado que lhe doíam os ouvidos. Então entendeu porque o doutor não havia mais querido tocá-lo.

O mecanismo de percussão, como havia explicado muitas vezes aos seus clientes, era muito complexo; conectava as teclas aos martelos e, portanto, o pianista ao som. Retirou o painel frontal para chegar a ele. Igualou a altura dos martelos, afrouxou as alavancas de escape e regulou a força do toque. Fazia pequenos descansos para substituir os feltros, afrouxar as teclas, ajustar o movimento do pedal uma corda... Quando finalmente se levantou cansado e coberto de pó, o piano havia melhorado muito. Foi sorte que não tenha precisado de grandes reparos, como consertar uma cravelha por exemplo, pois sabia que não tinha as ferramentas necessárias para coisas assim.

Afofando uns feltros e endurecendo outros
Começou a jornada harmonizando os martelos, para que produzissem um tom limpo. Na Inglaterra somente teria completado a afinação depois de harmonizar, porém estava preocupado com o tom: ou estava demasiadamente forte e brilhante, ou débil demais e apagado. Perfurou o feltro dos martelos mais rígidos com a agulha para suavizá-lo e trabalhou no mais fofos com o ferro de harmonizar para endurecê-los; deu forma às cabeças de modo que a uniformizar a superfície de compressão contra as cordas. Comprovou a harmonização percorrendo todas as oitavas cromaticamente, tocando arpejos quebrados e, por último, acionando as teclas uma a uma, para observar o comportamento da parte mais dura do feltro.

Nas notas de três cordas, começa-se a afinar pela do meio.
Finalmente estava preparado para afinar seriamente o piano. Começou uma oitava acima da corda rompida. Colocou cunhas para silenciar as cordas laterais de cada nota da oitava, de modo que ao tocar a nota, somente vibrava a do meio. Acionava a tecla, metia a mão dentro da caixa e movia a cravelha de afinação. Primeiro afinava a corda do meio e depois as dos lados e quando esta nota estava afinada, passava a uma oitava inferior (era preciso primeiro construir os alicerces da casa, sempre dizia isto aos seus ajudantes), e começava tudo de novo: ajustava as cravelhas, comprovava o som, tecla-cravelha-tecla...; num ritmo somente interrompido por uma ou outra palmada para afastar um mosquito.

A desafinação propositada do sistema temperado
Uma vez percorrida a oitava, se dedicou às notas centrais. O último passo era igualar o tom, de modo que todas as notas estivessem distribuídas igualmente ao longo da oitava. Este era um conceito que muitos aprendizes custavam a entender. Cada nota produz um som com uma freqüência determinada, se as cordas estão afinadas em relação às outras, se harmonizam, porém se não estão, produzem freqüências que se superpõem ocasionando pulsações rítmicas, ou batimentos, que é o resultado de sons de freqüências próximas mas levemente discordantes. Caso um piano esteja bem afinado em um determinado tom, não há batimentos ao acionar duas notas simultâneas, porém se torna impossível tocar numa outra tonalidade. A afinação temperada permitiu a resolução deste impasse; ao se abdicar da perfeição em todos os tons, todos eles ficam levemente desafinados. O temperamento consiste em criar batimentos deliberadamente, mas para um valor muito próximo, a fim de que somente um ouvido muito treinado possa discernir que as notas estão ligeiramente, todavia inevitavelmente, desafinadas.
Seria preciso esperar duas semanas e voltar a afinar o piano. Agora o Erard estava afinado, regulado e harmonizado.

Um exemplo do som de um Erard orquestral nº 109.613 de 1921 do acerto do concervatório de Paris, Cidade da Música.
Interepretado por Stany David Lasry, Claude Debussy, L'Ceuvre de Piano, Pour le Piano, Sarabande

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palavras-chave: temperamento, percussão, cravelha, feltro, corda, batimento, mp3 do Erard, afinação, mecanismo

Por Isaías Malta
Fontes: Livro “O Afinador de Pianos” de Daniel Mason e imagem

As Pesquisas Biológicas de Piaget

A partir de seus dados empíricos, Piaget concluiu que poderiam ocorrer assimilações de modificações morfológicas pelo genoma, sugerindo que as investigações sobre os genes reguladores seriam essenciais para explicar a adaptação dos seres vivos ao meio.

Piaget (1978a) formulou uma hipótese de assimilação das alterações fenotípicas pelo genótipo que chamou de fenocópia. Ele partiu de experimentos com moluscos gastrópodes (Limnaea stagnalis)[1], estudando as variações no tamanho da concha. Verificou que as raças que habitavam locais com águas tranqüilas possuíam uma concha mais alongada enquanto as que habitavam locais com águas agitadas possuíam conchas mais achatadas. Quando os descendentes dos indivíduos com conchas alongadas eram criados em locais de águas agitadas eles também desenvolviam conchas mais achatadas, pois faziam um maior esforço com a musculatura do pé para fixarem-se nas paredes rochosas dos lagos. Ao contrário, os descendentes de indivíduos com cochas achatadas, quando criados em águas tranqüilas, desenvolviam conchas alongadas.

Piaget concluiu que o esforço que os moluscos faziam para se fixarem nas paredes dos lagos deixava o seu corpo mais achatado e isso afetava o desenvolvimento da concha que se adequava à forma geral do corpo. Os moluscos de águas tranqüilas não necessitavam fazer muito esforço para fixação e desenvolviam conchas alongadas. Alguns animais que cresciam parte do tempo em locais de águas agitadas e outra parte em águas tranqüilas apresentavam conchas intermediárias. Desse modo, as alterações no formato das conchas são o resultado de um processo fisiológico desencadeado pelo comportamento de fixação às rochas. Para chegar a estas conclusões Piaget criou inúmeros indivíduos em aquários com o mesmo formato e alimentação, variando apenas a agitação da água.

Piaget estudou cinco a seis gerações de Limnaea stagnalis, geradas a partir de espécimes coletados nas diferentes estações do ano e, através da razão (r) obtida dividindo-se a medida do comprimento pela medida da largura das conchas, determinou cinco raças, a partir da média dessa razão (rm) em mil indivíduos: I (subula)rm 1,85; II (tipo da espécie) rm 1,78; III (turgida) rm 1,68; IV (lacustris) rm 1,54 e V (bodamica) rm 1,43. Após muitas coletas Piaget verificou que as raças I a III eram encontradas tanto em locais com águas agitadas quanto calmas, variando a forma das conchas de acordo com o ambiente. Porém as raças IV e V somente eram encontradas em locais de águas agitadas. A partir da distribuição dos indivíduos atuais e de conchas fósseis, Piaget trabalhou com a hipótese de que as variedades IV e V são mais recentes e se originaram da raça II.

Em um lago de águas tranqüilas, que nunca havia apresentado esta espécie de molusco, Piaget depositou, em 1927, ovos da raça V (Limnaea stagnalis bodamica), que só era encontrada em locais com águas agitadas. Após inúmeras coletas até 1943, quando o lago foi secado, Piaget verificou que todos os indivíduos apresentavam conchas achatadas. Concluiu a partir disso que havia ocorrido uma modificação no genótipo e esta raça havia fixado a forma achatada da concha a partir de uma adaptação fenotípica verificável em outras raças da mesma espécie. Ou seja, o genótipo havia “assimilado” uma alteração a partir do fenótipo, em outras palavras, o genótipo havia “copiado” um resultado de adaptação fenotípica perfeitamente observável nas raças I, II e III, por este motivo chamou o evento de FENOCÓPIA. Portanto, sua idéia de “fenocópia” interpreta o processo evolutivo a partir da interação, ou seja, da adaptação vital dos organismos.




Além dos moluscos, ele também estudou variedades do vegetal Sedum sediforme, uma Crassulaceae, que ocorre em diferentes altitudes, apresentando formas típicas para cada altitude. Neste caso também encontrou variedades, claramente aparentadas com as formas variáveis, que não variavam mais apesar de serem cultivadas em diferentes altitudes. Suas pesquisas estão divulgadas na obra “Adaptación vital y psicología de la inteligencia” escrita em 1974[2].




O tempo decorrido entre os experimentos e a publicação do livro sobre adaptação vital e psicologia da inteligência (de 1943 a 1974) pode ser explicado pela não objetividade dos dados empíricos de Piaget. Ele tentou provar, em nível biológico, suas conclusões obtidas através de investigação psicológica com milhares de crianças de várias idades. Ou seja, Piaget sabia que a inteligência necessitava de interação para se desenvolver, sabia também que ela estava sujeita a uma base biológica e, portanto, as leis que as regiam deveriam ser da mesma “natureza”. Assim, suas interpretações sobre os experimentos não se apoiaram exclusivamente nos dados empíricos, mas sim em toda a sua experiência prévia sobre o desenvolvimento da inteligência. Provavelmente, outros biólogos sem a sua vivência teriam buscado outras explicações e chegado a outras conclusões, mas as inovações do pensamento científico surgem através de pessoas revolucionárias, que conseguem propor novas formas de olharmos os dados, embora tais pesquisadores necessitem, por vezes serem redescobertos, muitos anos mais tarde por estarem à frente do seu tempo.

Quando realizou seus experimentos e escreveu sobre sua teoria de fenocópia, Piaget não dispunha de dados suficientes para pensar os possíveis mecanismos moleculares envolvidos neste processo. Já na década de 70 quando publicou seu livro já havia mais especulações sobre o papel dos genes reguladores. Assim ele sugeriu que, provavelmente, ao investigar os genes reguladores se poderiam encontrar muitas explicações para adaptação dos seres vivos ao meio, pois supunha que tais genes estariam intimamente ligados à auto-regulação do genótipo.

Atualmente foram desvendados vários processos moleculares de regulação gênica, que não se limitam apenas a genes e envolvem sistemas complexos, podendo apoiar o conceito de fenocópia proposto por Piaget. Sabe-se que os sistemas de regulação gênica são bastante complexos, diferindo num mesmo organismo e entre espécies. Algumas pesquisas sugerem que há mecanismos moleculares capazes de reequilibrar ou reestruturar o genoma a partir de uma estrutura precedente. Entre tais mecanismos podem-se citar os elementos de transposição ou transposons que se constituem em fragmentos de DNA capazes de se moveram dentro dos cromossomos.

De acordo com Hickey (1992)[3], todos os elementos de transposição estão sujeitos à seleção em nível molecular. A eles são atribuídos efeitos como a alteração da estrutura e função do genoma porque promovem mutações e rearranjos, afetam a regulação gênica e codificam produtos que interagem com os processos celulares, funcionando como ferramentas naturais de engenharia genética.

Ao se moverem dentro do DNA hospedeiro, os Elementos de Transposição possibilitam o surgimento de inversões cromossômicas, representando uma importante fonte de variabilidade genética e conferindo ao genoma uma maior plasticidade[4 e 5]. Isto nos sugere que há mecanismos moleculares capazes de reequilibrar ou reestruturar o genoma a partir de uma estrutura precedente.Para alguns autores, os elementos de transposição são considerados como ferramentas naturais de engenharia genética.[6]

Há vários mecanismos reguladores como o controle hormonal, capaz de alterar o funcionamento de genes, modificando o fenótipo em função das diferentes condições ambientais. Bem como já foram evidenciados mecanismos moleculares a partir de sistemas de reparo do DNA, os quais podem induzir processos de especiação em bactérias como resposta às pressões seletivas em situações de estresse ambiental. Estas evidências têm indicado que a evolução a partir da pressão ambiental é possível e as interpretações de Lamarck não são totalmente desprovidas de sentido.[7]

Diferentes mecanismos como a movimentação de elementos de transposição, o controle hormonal e a alteração no funcionamento de sistemas de reparo do DNA são compatíveis com a proposição piagetiana de que, em parte, a evolução pode resultar das alterações fenotípicas dos organismos ao meio, pois as diferentes soluções apresentam uma lógica comum que é a adaptação, para que a vida mantenha-se, como sistema autopoiético.


Não se pode atribuir todo processo evolutivo a um único tipo de evento, as pesquisas em biologia sugerem que a vida busca múltiplas soluções para seus problemas. Todavia, Piaget enfatiza que, do mais simples ao mais complexo destes processos, o papel do acaso não é desprezível, porém, modesto.

A teoria piagetiana preconiza uma mesma lógica tanto para as fenocópias biológicas quanto para as cognitivas. De forma que para ele a “equilibração majorante não é mais do que a expressão destes mecanismos gerais” (Piaget, 1978a, p. 188). Todavia, Piaget enfatiza que, embora haja um notável conjunto de convergências entre as funções cognitivas e orgânicas, há também um conjunto de diferenças, mostrando que o conhecimento desempenha funções que lhe são próprias.

Não é possível pensarmos que a maçã caída junto a Newton, pudesse ser a fonte de suas teorias sobre gravitação, uma vez que foi graças a todo um trabalho anterior e à sua capacidade de assimilação que um evento casual desencadeou todo um processo cognitivo. O ensaio piagetiano sobre adaptação vital e a psicologia da inteligência pode ser resumido a esta observação sobre a maçã de Newton, já que as condições prévias não fortuitas, mas necessárias para novidades aparentemente aleatórias.

Em todos os níveis, os esquemas de ação do sujeito diferenciam-se, incessantemente, por acomodação contínua aos dados novos. Toda adaptação resulta do equilíbrio entre assimilação e acomodação. Desse modo, para Piaget, a condição prévia de uma adaptação nova é uma adaptação precedente mais sua capacidade de reestruturação, num processo de fenocópias sucessivas.

Há muita similaridade entre a adaptação biológica e a cognitiva. Porém, embora a última prolongue a primeira, sua função é atingir formas irrealizáveis no domínio orgânico, tanto por sua riqueza, quanto pelo equilíbrio entre assimilação e acomodação.
Para ele, a realidade vital fundamental não é constituída nem por estruturas intemporais, nem pela sucessão histórica de acasos ou de crises, mas por processos contínuos de auto-regulações, que implicam desequilíbrios e um constante dinamismo de equilibração[8].

O critério é sempre o sucesso, quer signifique sobrevivência ou compreensão. Assim, existem mecanismos comuns entre o sucesso de uma teoria compreensiva e um organismo adaptado, porque a sobrevivência da melhor teoria se liga às escolhas ditadas pela experiência, que mantêm certas relações com as seleções impostas pelo meio.

No campo cognitivo, as trocas entre indivíduo e o meio estruturam e modificam o que se convencionou chamar de inteligência, ela se constitui como uma segunda natureza deste sujeito, fazendo com que um observador externo possa pensar que sempre esteve lá em algum lugar, pois os processos envolvidos são, em geral, invisíveis e quando se tornam visíveis se constituem numa totalidade que aparentemente “desabrochou”.


Por Gladis Franck da Cunha


Notas e referências:
[1] - Limnaea stagnalis é um molusco gastrópode que ocorre em lagos da Europa, Norte da Ásia e América do Norte. Sua concha apresenta um aspecto ovóide e alongado com 6 a 7 espiras nos adultos, tem uma altura de 45 mm a 65 mm e uma largura de 20 mm a 30 mm. ver mais detalhes em: http://www.lecalebuissonniere.eu/page147.html

[2] – PIAGET, Jean. Adaptación vital y psicología de la inteligencia Madrid : Siglo XXI de España ed., 1978a.

[3] - HICKEY, D. A. Evolutionary dynamics of transposable elements in prokaryotes and eukaryotes. Genetica Kluwer, n. 86, p. 269-274, 1992.

[4]- PURUGGANAN, Michael D. Transposable Elements as introns: Evolutionary Connections. Trends in Ecology & Evolution. Elsevier, v. 8, n. 7, p. 239-243, July, 1993.

[5]- REGNER , Luciana P. et al. Genomic Distribution of P Elements in Drosphila willistoni and a Search for Their Relationship With Chromosomal inversions. Journal of Heredity. Cory, v. 87, p. 191-198, 1996.

[6] - GARDNER, E. J. ; SIMMONS, M. J. ; SNUSTAD, D. P. ; Principles of genetics , 2 ed., New York : John Wiley, 1991.

[7] - TADDEI, François ; MATIC, Ivan ; RADMAN, Miroslav. Origem das espécies: o que há de novo? Ciência Hoje São Paulo, v. 21, n. 126, p. 48-57, 1997.

[8] - PIAGET, Jean. Biologia e conhecimento. 1ed. Porto : Rés ed, 1978b. 


Imagens: link 1 ; link 2 e link 3
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