07 novembro, 2007

A entonação do piano Erard

Quem ouve uma velha gravação de Ravel tocando Ravel se surpreende com a maciez do timbre e a leveza do teclado. Diferentemente da gritaria de alguns pianos alemães e americanos, o Erard se presta à musica sutil de Debussy, não tanto aos rompantes de Liszt, nem à padronização heavy metal que foi consagrada nas intrepretações das peças do período romântico, talvez açodadas pela garganta metálica dos steinways orquestrais.

Ravel ao piano
Há falta crônica de informações em língua português sobre afinação de pianos. Apesar de haver em inglês farto material sobre esta matéria, no Brasil até os locais que se vendem ferramentas e peças são escassos e escondidos. O livro "O Afinador de Pianos de Daniel Mason" traz este título apenas como alusão, pois a sua história não tem é sobre afinadores e muito menos sobre pianos. Contudo, numa determinada parte o protagonista se dedica a afinar um piano Erard de cauda mandado para a Birmânia pelo exército inglês para satisfazer os caprichos de um excêntrico oficial. É a referência mais extensa e direta sobre assunto do título. Então transcrevo aqui a passagem traduzida do espanhol:


Este é um piano de cauda completa Erard de 1840 construído no atelier de Sébastien Erard em Paris, o que o torna um raro exemplar, pois a maior parte dos que se encontram na Inglaterra procedem de um mesmo local em Londres. A caixa é de caoba e tem um mecanismo de duplo escape, um grupo de alavancas que impulsionam os martelos; que está desenhado de tal modo que depois de golpear as cordas, o martelo possa recuar com facilidade, ou “escapar”. É uma inovação introduzida por Erard, que foi incorporada aos outros pianos. Porém o dos Erards é um mecanismo muito estreito, resultando no porquê dos martelos se desajustarem tanto. As suas cabeças alternam coro e feltro, dificultando muito o trabalho em relação aos pianos de outras marcas, que usam feltro somente. Sem haver examinado, já imagino que este deve estar terrivelmente desafinado e não quero nem pensar nos danos provocados pela umidade.

Dois pedais “una corda”, os abafadores chegam até a tecla do segundo si acima da oitava média; uma configuração típica. No Erard estão localizados debaixo das teclas e fixados por uma mola, o que é pouco habitual: na maior parte dos pianos, eles se apóiam sobre as cordas. Já saberei quando olhar o interior, mas suponho que há barras de reforço entre o cepo e o bastidor. Isso era prática corrente em 1840, servia para suportar a tensão das cordas de aço, mais fortes, que eram empregadas porque com elas se obtinha um som mais intenso.

O equipamento básico: uma chave para afinar, e chaves de fenda normais, esta mais fina e o regulador de escape são para o mecanismo de percussão. Alicates para afrouxar as teclas e um espaçador de teclas, tenazes para encurvar, dois ferros para dobrar os abafadores, um gancho para ajustar as molas, pinças, o regulador do cabrestante especialmente fino, que se usa somente com os Erards (sem ele é impossível regular a altura dos martelos). Como vês, não há diapasão; tenho um ouvido excelente e não necessito. Há cunhas para regular as peças forradas em couro e vários rolos de arame de diversos calibres. Também há outros utensílios, estes mais específicos para harmonizar: um ferro, cola e vários alfinetes especiais, porque se entortam com facilidade.

Entonação do piano
Entonar significa trabalhar sobre o recobrimento dos martelos para uniformizar, ou harmonizar os seus impactos sobre as cordas. A cor do tom e a variação dinâmica é grandemente reduzida quando os martelos tornam-se compactados. A resilência(*) é uma característica do feltro, que aumenta a vida útil dos martelos. É responsável também pela diminuição da possibilidade de rompimento das cordas, e reduz grandemente a compactação do feltro, resultante do contato entre martelo e corda. Efetivamente, a entonação controla, entre outras coisas, o tempo de contato do martelo com as cordas durante a percussão. Diferentes resultados podem ser alcançados:

1) Agulhando diferentes posições do martelo.

2) Alterando o comprimento das agulhas ou o tanto que estas agulhas penetram no martelo.

Por exemplo, o agulhamento na parte inferior dos ombros irá aumentar o volume se os ombros estiverem duros e não resilentes. É também possível que o agulhamento nos ombrpos proporcione um efeito sonoro abafado. Quanto mais perto das pontas, mais abafado o som ficará. É necessário enfatizar que a entonação não pode ser ensinada por um manual, precisa ser praticada.

Faça sempre a entonação, mesmo que rapidamente e tenha consciência que uma entonação competente advém depois de milhares de horas de entonar e escutar as diferenças no resultado sonoro.

Cuidado: Quando agulhar, não fazê-lo na ponta dos martelos. Segure firme o cabinho para evitar o jogo nas boquetas.

*) Resilência: é a capacidade do feltro de permanecer fofo.

Regulagem – o alinhamento do mecanismo de modo que todos os martelos estejam na mesma altura e golpeiem as cordas com brio e retrocedam com suavidade para que se possa tocar novamente a mesma nota. Em geral este é o primeiro passo. No entanto, eu gosto de começar com uma afinação provisória. Normalmente o processo tem que ser repetido várias vezes, porque ao afinar uma corda, a dimensão da tábua harmônica sofre modificações, afetando as demais cordas.

Há maneiras de evitar que isto ocorra: afinar as notas um pouco mais altas, por exemplo, porém na minha opinião é impossível evitar as alterações. Ademais, as cordas tendem a voltar a sua forma original, assim é melhor deixar passar uma noite antes de se tentar os retoques. De modo que faço uma primeira afinação, regulo e logo volto a afinar; essa é a minha técnica, porém outros fazem de maneira diferente.

Os experts em Erards costumam ser bons harmonizadores, pois combinação de couro e feltro dificulta o trabalho. Também há outras tarefas de menor importância. Neste caso, tentarei buscar algum modo para impermeabilizar a tábua harmônica. Tudo isto, é claro, dependerá que tudo funcione bem.

CONTINUA...

Por: Isaias Malta

Ilustração: Vienna Symphonic Library

Um comentário:

  1. Anônimo5/9/13

    Resiliência é a propriedade caracterizada pela capacidade de devolver a energia mecânica recebida. É o efeito da mola. É às vezes confundida com elasticidade, que é propriedade do material de ser deformado sem se romper.

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