11 novembro, 2007

Como afinar um piano Erard

Alguns pormenores sobre a afinação de um piano Erard descritos no livro "O Afinador de Pianos" de Daniel Mason. Algumas particularidades presentes nos pianos Erard são incomuns nos outros pianos, como o emprego de couro e feltro combinados na cobertura dos martelos percussivos.


Não se sentou, sempre dizia aos seus aprendizes que os pianos são melhor afinados de pé. Tocou a tecla dó da oitava média. Demasiado grave. Tentou na oitava inferior e logo tocou o dó das outras oitavas. O mesmo problema: todas estavam quase um semitom abaixo. Contudo, as agudas estavam pior. Tocou o primeiro movimento das suítes inglesas de Bach, porém sem acionar a tecla que tinhas as cordas rompidas. Nunca se havia considerado um bom pianista, mesmo que lhe encantasse o frescor do marfim e o vai e vem das melodias. Deu-se conta de que há vários meses não tocava e ao cabo de uns compassos se deteve; o piano estava tão desafinado que lhe doíam os ouvidos. Então entendeu porque o doutor não havia mais querido tocá-lo.

O mecanismo de percussão, como havia explicado muitas vezes aos seus clientes, era muito complexo; conectava as teclas aos martelos e, portanto, o pianista ao som. Retirou o painel frontal para chegar a ele. Igualou a altura dos martelos, afrouxou as alavancas de escape e regulou a força do toque. Fazia pequenos descansos para substituir os feltros, afrouxar as teclas, ajustar o movimento do pedal uma corda... Quando finalmente se levantou cansado e coberto de pó, o piano havia melhorado muito. Foi sorte que não tenha precisado de grandes reparos, como consertar uma cravelha por exemplo, pois sabia que não tinha as ferramentas necessárias para coisas assim.

Afofando uns feltros e endurecendo outros
Começou a jornada harmonizando os martelos, para que produzissem um tom limpo. Na Inglaterra somente teria completado a afinação depois de harmonizar, porém estava preocupado com o tom: ou estava demasiadamente forte e brilhante, ou débil demais e apagado. Perfurou o feltro dos martelos mais rígidos com a agulha para suavizá-lo e trabalhou no mais fofos com o ferro de harmonizar para endurecê-los; deu forma às cabeças de modo que a uniformizar a superfície de compressão contra as cordas. Comprovou a harmonização percorrendo todas as oitavas cromaticamente, tocando arpejos quebrados e, por último, acionando as teclas uma a uma, para observar o comportamento da parte mais dura do feltro.

Nas notas de três cordas, começa-se a afinar pela do meio.
Finalmente estava preparado para afinar seriamente o piano. Começou uma oitava acima da corda rompida. Colocou cunhas para silenciar as cordas laterais de cada nota da oitava, de modo que ao tocar a nota, somente vibrava a do meio. Acionava a tecla, metia a mão dentro da caixa e movia a cravelha de afinação. Primeiro afinava a corda do meio e depois as dos lados e quando esta nota estava afinada, passava a uma oitava inferior (era preciso primeiro construir os alicerces da casa, sempre dizia isto aos seus ajudantes), e começava tudo de novo: ajustava as cravelhas, comprovava o som, tecla-cravelha-tecla...; num ritmo somente interrompido por uma ou outra palmada para afastar um mosquito.

A desafinação propositada do sistema temperado
Uma vez percorrida a oitava, se dedicou às notas centrais. O último passo era igualar o tom, de modo que todas as notas estivessem distribuídas igualmente ao longo da oitava. Este era um conceito que muitos aprendizes custavam a entender. Cada nota produz um som com uma freqüência determinada, se as cordas estão afinadas em relação às outras, se harmonizam, porém se não estão, produzem freqüências que se superpõem ocasionando pulsações rítmicas, ou batimentos, que é o resultado de sons de freqüências próximas mas levemente discordantes. Caso um piano esteja bem afinado em um determinado tom, não há batimentos ao acionar duas notas simultâneas, porém se torna impossível tocar numa outra tonalidade. A afinação temperada permitiu a resolução deste impasse; ao se abdicar da perfeição em todos os tons, todos eles ficam levemente desafinados. O temperamento consiste em criar batimentos deliberadamente, mas para um valor muito próximo, a fim de que somente um ouvido muito treinado possa discernir que as notas estão ligeiramente, todavia inevitavelmente, desafinadas.
Seria preciso esperar duas semanas e voltar a afinar o piano. Agora o Erard estava afinado, regulado e harmonizado.

Um exemplo do som de um Erard orquestral nº 109.613 de 1921 do acerto do concervatório de Paris, Cidade da Música.
Interepretado por Stany David Lasry, Claude Debussy, L'Ceuvre de Piano, Pour le Piano, Sarabande

>>>>>>>>>>>>>>>DOWNLOAD MP3

palavras-chave: temperamento, percussão, cravelha, feltro, corda, batimento, mp3 do Erard, afinação, mecanismo

Por Isaías Malta
Fontes: Livro “O Afinador de Pianos” de Daniel Mason e imagem

18 comentários:

  1. O PIANO DO SEU BLOG, ENTRETANTO, TEM O SOM CLARO E NÍTIDO DOS GRANDES RECITAIS, UM ABRAÇO, ROGEL SAMUEL

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  2. Anônimo17/10/08

    Parabéns!!! Seu blog está exelente, informações consistentes e bem variadas.Viva a música, viva o piano!!!!

    Carlos Gustavo Kersten

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  3. Anônimo10/11/08

    Onde encontro feltro para piano?

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  4. Você encontra diversos calibres de feltros em lojas que vendem plásticos,borrachas, etc.
    A Fritz Dobbert http://www.fritzdobbert.com.br/ vende peças de piano.

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  5. Anônimo16/7/09

    Comprei uma chave pra afinar piano; tentei afiná-lo várias vezes e até dei uma boa melhorada. Mas algns martelos parecem ter perdido a força, isso eu não sei como consertar. Iludi-me pensando que afinação era tudo.Suas informações não fizeram sentido para mim.

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  6. Eu nunca disse que afinação era tudo. Realmente, com o tempo os feltros dos martelos acabam ficando muito duros e você tem que amaciá-los espetando repetidamente uma agulha, este problema é mais crucial na região dos agudos, quando as notas praticamente desaparecem em virtude da rigidez dos feltros.

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  7. Anônimo24/1/10

    Tenho um piano Schiedmayer 1910, a marteleira é norte-americana, mecânica refeita excelente trabalho do Tecnico Fumimasa Otani de Maringá, só que o som do piano está surdo, não sei se são as cordas, ou a estrutura envolvendo a tábua harmônica. Gostaria de uma idéia. Obrigado João -São Borja - RS

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  8. Este piano completou 100 anos, ou seja, já está em pleno declínio sonoro. No entanto, isto não significa que o som seja "desligado" de uma hora para outra. Por isto, aposto mais na validade das cordas, principalmente os bordões, que com o tempo ficam com um som mole e oco. Dependendo da idade delas, necessariamente todas deverão ser trocadas porque o Schiedmayer é caracteristicamente um piano de belissimos pulmões.

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  9. voce disse ahi, qu eeh necessario agulhar os feltros dos martelos, me explica se isto pode ser feito apos o lichamaneto dos martelos marcados pelas cordas? tenho um fritz dobbert modelo 113 console de 1980, o qual eu ja lichei os feltros dos martelos, mas o som continua ainda falho em algumas areas. obg

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  10. wandeko,
    a técnica consiste em espetar uma agulha dessas de costura num pauzinho e enfiá-la centenas de vezes em toda na face do feltro, principalmente nas áreas de contato direto com as cordas. Você tem que ir testando aos poucos, pois se o feltro ficar muito fofo, o som fica cada vez mais abafado.
    Se o som está falhando em algumas notas, você terá que verificar os ajustes de pressão dos martelos.

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  11. Anônimo17/10/10

    Tenho um Zimmermann 1987, e nota-se que algumas notas soam demasiadamente estridente/metalico, percebi que o martelo esta como que calejado, o que posso fazer para suavizar este som?

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  12. Você tem que diminuir a resiliência do feltro do martelo perfurando-o várias vezes com um agulha dessas de costura, até ficar bom.

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  13. Eu prefiro contratar um profissional para fazer Afinação de pianos !

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  14. Claro que é muito melhor contratar um profissional. Só que o estudante ou pianista deveria saber dar os retoques.

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  15. Isaias, vale comprar um Erard semidestruído para reforma? Haverá gente que compreenda esse piano?

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  16. Isaias, vale comprar um Erard semidestruído para reforma? Encontrarei profissionais que o compreendam e façam brilhar novamente?

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    1. Existem restauradores que fazem este tipo de trabalho, o grande problema é o preço, que pode chegar às cifras do piano novo. A melhor coisa a fazer antes de adquirir um piano nessas condições é consultar primeiramente um restaurador.

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    2. Você pode acompanhar um trabalho de restauração neste vídeo, inclusive menciona o preço, que é 6 mil reais, feito num Blüthner. http://ricmais.com.br/pr/video/tecnicos-mantem-viva-a-arte-da-fabricacao-e-restauracao-de-pianos/

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